​Dilema da vida moderna

A vida tem dilemas bem peculiares, mas acredito que o mais cruel e perturbador seja o self-service. Nada é tão desafiador quanto uma pista de comidas frias e quentes, ali, a Deus dará, esperando alguém disposto a preencher um prato com sushis, ovos de codorna, batatas fritas que sorriem e pelo menos uns dois tipos de carne.
No momento que os nossos olhos encontram aquela 8ª maravilha da vida moderna – leia-se pasteizinhos, saladas de maionese e filés a parmegiana -, um sentimento inigualável surge. A princípio, o coração se enche de alegria, dúvida e medo, tudo isso facilmente traduzido para: “Uau, tem yakisoba hoje”, “Mas será que pego estrogonofe?”, “Será que esse sushi é de hoje?”.
Poucas coisas desafiam tanto o ser humano em pleno século XXI do que o self-service. Porque não tem um ser humano em sã consciência nesse mundo que sabe exatamente o que vai comer. Nem a galera fitness, afinal, tem rúcula, alface e almeirão na pista fria.
Talvez, o dito cujo que inventou o self-service era um pisciano como eu, porque nunca conseguiu decidir se quer frango ou peixe e, assim, poderia comer os dois. Esse cara é um patife. Colocou à prova todas as maiores dificuldades da humanidade: tomar uma decisão rápida, harmonizar a decisão com o bolso (ou ticket né, mores?) e ainda ter completa e absoluta certeza de que saiu satisfeito.
Todo mundo se arrepende em self-service. Que atire o primeiro caroço de azeitona quem nunca fez um prato e foi embora pensando naquele rondelle, ou aquele salmão assado.
A gente sempre se arrepende, e promete: na próxima vez eu juro que vou pensar melhor e escolher melhor, com mais calma e menos fome. Afinal, se alimentar é fundamental, mas saborear é extremamente característico das pessoas.
Se bem que sabe, assim, sei lá, só divagando como uma boa pisciana com lua em câncer que sou… A vida moderna toda é um grande self-service.

Ah, não esquece de pegar o abacaxi na sobremesa. É bom pra quando as escolhas não caem bem.

Mariana Nogueira

Chef por formação, Social Media por destino e colecionadora de aprendizados. Acredita que a vida só faz sentido se tiver o nosso tempero.

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