Ainda há muito caminho pela frente

Acabamos de comemorar o Dia Internacional da Mulher. Mas, afinal, comemorar o que? A violência contra o sexo feminino teve destaque no relatório da Anistia Internacional sobre violações de direitos humanos no Brasil em 2016 e uma série de estudos confirmou que o país é um dos piores da América Latina para quem nasce menina, em especial aos altos níveis de violência de gênero e gravidez na adolescência. O relatório ainda apontou que a violência letal contra as mulheres aumentou 24% durante a década anterior.

Mesmo com as campanhas realizadas no Carnaval deste ano para combater o machismo, o assédio e a violência sexual, um balanço divulgado pela Polícia Militar do Rio de Janeiro revelou que ao menos uma mulher foi agredida a cada quatro minutos no estado. Durante os cinco dias de folia, 2.154 das 15.943 solicitações foram pedidos de socorro sobre a violência da mulher.

Não podemos esquecer dos estupros coletivos que ocorreram no país e que foram destaque mundial – uma menina em 21 de maio e de uma mulher em 17 de outubro, ambos os casos no Rio de Janeiro. De acordo com o relatório, isso só confirma a incapacidade do Estado para respeitar, proteger e cumprir os direitos humanos de mulheres e crianças.

As lutas são diárias, constantes e se depender dessa mulherada toda, não vai acabar nunca. As reivindicações desejam apenas uma coisa: seus direitos. Sim, direitos. Direito de ocupar uma vaga de emprego e ganhar o mesmo salário que o homem, direito de sair na rua sem ouvir um “fiu, fiu”, direito de usar a roupa que quiser (e de não usar), direito de viver sem medo.

É triste falar, mas aposto que 10 em cada 10 mulheres têm medo de sair na rua a noite, geralmente atravessa para o outro lado da calçada quando sente que tem “alguém” atrás dela ou foge quando se sente coagida. Parece desnecessário falar isso em pleno século XXI, mas não é. Quer um exemplo? Recentemente, uma amiga (única realmente formada e com diploma na cidade onde mora) estava concorrendo a uma vaga de emprego na Câmara dos Vereadores e sabe por que ela não conseguiu? Pelo fato de ser mulher. Exatamente. Ser mulher. E o mais interessante desta história é que quem disse que ela não era “apta” para a vaga foi uma mulher.

O Brasil ocupa o 5º lugar no ranking de assassinatos femininos no planeta. Ocorrem 13 feminicídios por dia. Entre 2003 e 2013 o assassinato de mulheres negras teve um crescimento de 54%; 15 e 29 anos é o intervalo da idade das principais vítimas; estima-se que 527 mil estupros ocorrem no País anualmente, mas só 10% chegam ao conhecimento da polícia; mais da metade dos homicídios contra as mulheres são cometidos por familiares; 4,8 homicídios por 100 mil foi a taxa no Brasil, mais que o dobro da média de 83 nações pesquisadas (2 por 100 mil); 70% dos estupros são cometidos por parentes, namorados, amigos ou conhecidos e 70% das vítimas são crianças ou adolescentes.

Próximo ao Dia Internacional da Mulher, o goleiro Bruno – condenado há mais de 22 anos de prisão por matar sua ex-companheira e desaparecer com o corpo por não querer pagar a pensão do filho – foi solto. Sim, alguém dopado, usando crack  o juiz entendeu que ele poderia retornar à sociedade. Não, ele não pode. Pior que isso é saber que existem nove, eu disse NOVE clubes de futebol querendo contratar o goleiro, sendo que dois deles disputam a série A do Campeonato Brasileiro. É realmente pedir pra Hebe me levar, porque eu desisto do mundo.

Se você acha que não pode piorar, lembro a você que o presidente do Brasil, Michel Temer (o qual não reconheço como tal) deu sua entrevista sobre o Dia Internacional da Mulher. Minha vontade é de vomitar na cara dele. Em um discurso asqueroso, o digníssimo (porque vou manter a linha Bela, Recatada e do Lar) disse que a mulher influencia muito na economia do Brasil. Sabe por quê? Porque ninguém conhece os preços dos produtos dos supermercados como ela. #fofíssimo.

Tenho absoluta convicção, até por formação familiar e por estar ao lado da Marcela Temer, do quanto a mulher faz pela casa, pelo lar. Do que faz pelos filhos. E, se a sociedade de alguma maneira vai bem e os filhos crescem, é porque tiveram uma adequada formação em suas casas e, seguramente, isso quem faz não é o homem, é a mulher”. Temer, Michel. 2017. Me segura pra não dar na cara dele.

Não precisamos lembrar que muitas crianças crescem com os pais, avós, tios e viram marginais, pois onde já se viu crescer sem uma mulher ao lado, né?! E o que será das crianças em que a mãe precisa trabalhar fora (teoricamente o dia inteiro) para manter o lar e dar o melhor para seu filho? Deus me livre pensar como é a educação delas.

Poderíamos ficar aqui falando sobre inúmeros casos, mortes, lutas das mulheres para conquistar seu espaço na sociedade de forma digna (isso já deveria acontecer) e com seus direitos assegurados. Os dados só mostram o quanto o Brasil ainda precisa evoluir muito quando o assunto é mulher. Infelizmente, o país não conseguiu acompanhar o sexo feminino, talvez o Brasil seja masculino – sexo frágil, sabe como que é.

Recentemente, a atriz Emma Watson (feminista declarada e assinada) conversou com Malala Yousafzai – militante de direitos humanos, vencedora do Nobel da Paz de 2014 – sobre o peso da palavra feminismo e ambas declaram a importância do apoio de homens à luta por igualdade de direitos. “Eu achava que ‘feminista’ era uma palavra traiçoeira. Eu me perguntava: será que sou feminista ou não? Mas depois de ouvir o seu discurso, eu decidi que não tem nada de errado em se considerar feminista”. O discurso a qual a paquistanesa se refere foi feito no lançamento da campanha He For She (Ele Por Ela), criada por Emma Watson, que é embaixadora da boa vontade da agência ONU Mulheres desde julho de 2014. A campanha encoraja os homens a lutarem junto com as mulheres pela igualdade de direitos.

Em post feito na sua página oficial do Facebook, Emma disse: “(…) Não vamos fazer do feminismo uma palavra assustadora. Quero fazê-lo um movimento acolhedor. Vamos dar as mãos para promover uma verdadeira mudança”. Na entrevista, Malala concordou com as palavras da atriz: “Eu sou uma feminista, e todos deveríamos ser feministas, porque feminismo é uma outra palavra para igualdade”.

Mais uma vez quebrando o tabu, a Nike lançou sua primeira coleção de roupas plus size – pois praticar esporte vai muito além do corpo físico, levando em consideração a saúde em primeiro lugar. E, com isso, a marca decidiu lançar as roupas femininas com camisetas, tops, leggings, shorts e blusões com tecidos da marca voltados à diferentes práticas esportivas agora nos tamanhos G, GG e GGG. Em nota oficial, a Nike disse que optou pela linha feminina por considerarem as mulheres mais fortes, ousadas e abertas. As peças já estão disponíveis nas lojas oficiais e no site.

Precisamos alimentar essa mudança cultural, celebrando a diversidade destas atletas, da etnia à forma do corpo (…) A motivação das mulheres de hoje é serem fortes. E embora ser forte não se exterioriza da mesma forma para todas, o que é consistente hoje em dia em todos as atletas é que o fitness é uma parte muito importante da vida delas e da forma como se vestem.

Muitas pessoas estão na luta pelo feminismo, atrizes, cantoras, a vizinha, a recepcionista e tantas outras mulheres do mundo inteiro. A luta é diária e precisa do apoio de todos, principalmente dos homens. É difícil lidar com uma cultura (que deve ser disseminada) em que mulher é para casar, limpar a casa e cuidar dos filhos. Sinto dizer que hoje e todos os outros dias, lugar de mulher é onde ela quiser. E você, vai ficar parado ou também vai nos dar as mãos?

E reflitam sobre esse pequeno texto…

Letícia Minutti

Jornalista. Geminiana. Apaixonada pela vida e fã do Latino nas horas vagas. Não importa o que aconteça, ria, mesmo que seja de nervoso. Se nada der certo? Segue o baile. E se der certo? Continua seguindo o baile.

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