Ainda precisamos falar sobre a cura gay?

O ano é 2017. O calendário marca setembro. Se fosse há uns dez anos atrás, eu chutaria que o assunto poderia ser o teletransporte ou a descoberta da vida em Marte. Mas não. O assunto é cura gay. Dá pra acreditar?

Eu entrei na faculdade de Psicologia em 2010 e de lá pra cá esse tema já apareceu pelo menos umas três vezes e foi embora, mas (infelizmente) nunca é enterrado de vez. Ele vai e volta sem parar e, em tempos de retrocesso (olá, 1964), vejo extrema necessidade de me posicionar e explicar, tim-tim-por-tim-tim, o porquê de ser tão contra esta liminar.

O primeiro ponto que precisa ser esclarecido é: o CFP (Conselho Federal de Psicologia, que regulamenta a prática da profissão no Brasil) nunca proibiu psicólogas e psicólogos de atenderem homossexuais, muito pelo contrário. Ele sempre preconizou um fazer da psicologia sem preconceitos e sem julgamentos. Logo, o argumento de que agora os psicólogos apenas poderão atender os homossexuais é falso, porque isso nunca foi uma proibição. Bem como fazer pesquisas com relação a homossexualidade. A questão aqui é que a pesquisa que se deseja fazer e o atendimento que se deseja oferecer não é livre de preconceitos, muito pelo contrário, é embasado sempre com argumentos de cunho moral. E religiosos. E não é difícil de imaginar que psicologia misturada com religião dá mais ruim que leite com manga. Inclusive é proibido misturar as duas coisas (a psicologia e a religião, leite com manga tá liberado). Pesquisas para provar que um gay pode deixar de ser gay? Ser curado? A quem serve estas pesquisas? A bancada religiosa do congresso que a apoia? Já não basta todo tipo de sofrimento que a população LGBT foi, e ainda é, submetida? É aquela velha história que, aparentemente, sempre tem que ser lembrada: liberdade de expressão (inclusive na pesquisa) é uma coisa, discurso de ódio/opressor é outra e este tem, sim, que ser combatido e calado!

A psicóloga Rozangela Alves Justino, uma das propositoras da ação, teve seu registro caçado em 2009 pelo CFP porque acreditava que homossexuais podiam ser curadas de sua orientação sexual, entendendo que ela era fruto de traumas sofridos na infância. Obviamente a proposta da (ex-)psicóloga em questão tinha cunho religioso e, não à toa, hoje ela ocupa cargo no gabinete de um deputado evangélico (e o Estado não era pra ser laico, Arnaldo?) do DEM-RJ na Câmara Federal.

Segundo: como é que pode uma liminar de um juiz – que não é psicólogo, caso não tenha ficado claro – interferir no que o psicólogo pode ou não fazer sendo que o próprio CFP já tem uma resolução (001/99) que estabelece normas de atuação para o psicólogo em relação as questões ligadas a orientação sexual? Vocês tão pensando que psicologia é bagunça? Além de que, reorientar alguém sexualmente pressupõe o retorno a uma sexualidade anterior, ou dita normal. O que não é normal, então, se torna diferente, exótico, patológico. Não existe reorientação sexual de hétero para homossexual, então por que o oposto tem que existir?

Eu li algumas pessoas dizendo que só vai atrás de cura gay quem quer. Veja bem… Esse é um discurso bastante simplista porque: se alguém pudesse escolher não ser gay (e se, para isso, tratamentos fossem oferecidos), grande parte aceitaria, pois estas pessoas não são aceitas na nossa sociedade e, por isto, seria menos doloroso se “converter” a heterossexualidade. A gente tem que curar é a sociedade que está doente, não quem sofre as consequências dela; além disso, existem crianças que podem ser submetidas a reorientação sexual pelos pais que não conseguem aceitar suas sexualidades. Quando a gente acha que é tudo bem mudar a sexualidade de uma outra pessoa, a gente normaliza o discurso heteronormativo que ainda é vigente na nossa sociedade.

Se posicionar neste momento, então, se faz de extrema importância. Não tem que reorientar ninguém, não. E que o mundo seja cada vez mais gay para calar a boca dessa gente careta e covarde que não dá ponto sem nó e quer mais é que os direitos das minorias escorra ralo a baixo.

Até porque, mais uma vez, 2017! A Organização Mundial da Saúde já não considera homossexualidade doença desde 1990. Em 1935 (MIL NOVECENTOS E TRINTA E CINCO!!!), o papi soberano da psicanálise, Freud, escreveu uma carta a uma mãe que queria curar seu filho homossexual dizendo que

“Ao pedir minha ajuda, subentende-se que eu poderia acabar com a homossexualidade e substituí-la  pela heterossexualidade. A resposta, de maneira geral, é que não podemos prometer este resultado (…) A análise pode beneficiar seu filho de uma outra forma. Se ele está infeliz, neurótico, envolto em conflitos, retraído na vida social, a análise pode lhe proporcionar harmonia, paz de espírito e completude, mesmo se ele continuar ou não um homossexual”.

Será que ainda é necessário falar que não existe cura pra quem não está doente? Eu gostaria que não.

E é sempre bom lembrar: o amor (qualquer um) cura. O ódio é que mata.

Julia Calixto Colturato

Psicóloga, mas queria mesmo era ser famosa. A louca dos signos (sagitariana), ama reality show e Anitta e não se aguenta quando o tema da conversa é feminismo.

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Psicóloga, mas queria mesmo era ser famosa. A louca dos signos (sagitariana), ama reality show e Anitta e não se aguenta quando o tema da conversa é feminismo.