ANO PASSADO EU MORRI

– Achei que Belchior já tinha morrido, mas, como não tinha, fui ouvir as músicas e são tão lindas, né?

– São belíssimas – respondi.

– Belíssimas.

Belchior ainda não tinha morrido porque sumiu no mundo antes. Se não o tivesse feito, na certa que desapareceria dentro de si. Em 2017 faz mais de dois anos que não sento a bunda no chão, coloco os fones de ouvido no volume máximo e dou play nos discos do rapaz latino americano sem dinheiro no banco e vindo do interior, mas, comecei a pensar naquela primeira vez. Era para lá de 2011, época em que eu era dada ao jornalismo de calçada de boteco e quaisquer saudades ocasionais – que eram muitas. Desesperadamente romântica, chegada nos (des)amores loucos (coisa de amador!), lia assiduamente as crônicas de Xico Sá no blog “Modos de macho, modinhas de fêmea & outros chabadabadás” – quando ainda estampavam as páginas virtuais da Folha de S.Paulo e falavam sobre os romances doídos do Hellcife e não da política. Eu sofria ao som de Caetano e Bob Dylan, Xico ao som de Leonard Cohen e Belchior.

Um dia enviei um e-mail pedindo que fosse fonte para um trabalho de História do Brasil da faculdade – e depois enviei mais um monte. “Diga lá, Olívia”, ele respondeu no mesmo ato. Respondi, então, dizendo lá. E além dos lás, perguntei dos outros assuntos de cá – achava que já nos conhecíamos. Xico me devolveu cinco páginas de entrevista e um conselho. “Olívia, ninguém morre de saudades de outras terras. Ouça aos discos do Belchior – se não curar, te faz poeta ou te leva de volta”, respondeu. Assim o fiz. “A Palo Seco” – olhos fechados, as costas nuas no chão do quarto do apartamento barulhento do oitavo andar no prédio da Alameda Santos com a Joaquim Eugênio de Lima: enquanto o ladrilho gelado ensaiava uma amidalite de outono, eu concordava que, sim, um tango argentino me cai bem melhor que um blues. Não curou, não. Mas, também não levou de volta. Só ensinou a aproveitar até o que dói porque doer também é necessário e ensina que vale a pena ficar.

“João, o tempo andou mexendo com a gente, sim” e aí esqueci que dá para ter saudade das coisas que a gente vive enquanto tá vivendo e não só de casa ou do que deixamos para trás sem achar que bateria um arrependimento em uma tarde qualquer de terça-feira nublada. Dei para ouvir Chopin quando ficava difícil de respirar nas noites insones e não quis nunca mais voltar para a minha terra. Mas, de tempos em tempos, lembro que é preciso viver em valsa constante ao longo dos anos. Dois pra lá e dois pra cá.

Belchior morreu neste – talvez o que me faz mais sentir viva de todos – em um outono gelado igualmente àquele em que eu achava que precisaria ia ao hospital para fazer inalação ou tomar antibiótico durante uma semana e meia ou mais. Xico escreveu um texto tão apático que deu para sentir o luto do lado de cá. Um sofrimento a seco – igual o palo. Dói né? É como a música do cearense. Mas, se não curar, te faz poeta ou leva de volta. Não dá para saber para onde. Sei que enquanto há um adeus de lá, aproveito os passos da valsa frenética do lado de cá. Ano passado eu morri, Belchior, mas esse ano eu não morro, não. Prometo.

Olívia Andrade Nicoletti
Olívia tem 26 anos, é repórter de moda, artista, desastrada, bebe muito gim e coca-cola e escreve sobre amor quando tem tempo.

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