Belchior: o cara que falava com o coração

“Belchior fala(va) com o coração” ouvi certa vez do meu padrasto, que gostava muito de suas canções, e tentava me convencer a ouvi-lo.

Confesso que até uns seis meses atrás eu nunca havia me interessado por ele e suas canções quase sempre passavam despercebidas quando tocadas em algum dos churrascos de família aos domingos.

Havia uma espécie de preconceito, acredito que era com o seu timbre de voz, e por conta disso eu não compreendia a fixação de algumas pessoas com ele. Outro fator que me incomodava, com uma certa dose de petulância – burra, admito – era que eu não o achava o cara mais afinado do mundo. O que eu não entendia era que a sua música não tinha que ter os mesmos acordes, nem soar radiofônica, os refrões não tinham de ser pegajosos, o cara simplesmente seguir porra nenhuma de padrão ou estética musical, ele era aquilo: simples, cru, direto, sensível, poético…

 

Particularmente, acho uma bosta terrível essa história de homenagens póstumas. Mas também entendo isso como uma crítica das mais clichês sobre o assunto. O que é homenagem em vida, afinal?  No caso do Belchior, entendo que a quantidade de grandes artistas que regravaram suas canções fale por si só.

“Belchior fala(va) com o coração” eu ouvia. “Tudo bem, mas isso não é nenhum atrativo pra mim”, estupidamente costumava responder.

Foi então que há mais ou menos uns seis meses, ou pode ter sido há 1 ano, não sou bom com datas, eu estava na casa de um amigo, e como costumamos acreditar que temos uma banda de rock, estávamos compondo algumas músicas e conversando sobre a situação do país. Um dos assuntos era o show midiático promovido por um certo juiz que se acha Deus, e entre umas e outras, começamos falar sobre alguns artistas que de alguma forma enfrentaram a ditadura; Chico Buarque, Caetano etc… eis que ouço: “cara, mas você já ouviu Belchior? O cara é foda demais também, hein”.

Engraçado como a chamada aplicada por ele me atraiu de forma mais honesta. Eu não entendia a fala do meu padrasto como honesta, soava uma falsa pretensão de ser poético ao se referir ao seu artista favorito.

Como eu sou burro!

Nos últimos seis meses eu tenho ouvido muito a obra desse cara, que a cada dia se mostra mais e mais atual. No fim das contas, o timbre de voz do cara passou a me agradar, comecei a achar um tom “simpático”. As letras são simples, sensíveis, fortes. Esses dias li que o rock é surpreendente porque podemos ouvir um “Welcome to the Jungle” no lado A e nos deparar com “Patience” no lado B.

PORRA NENHUMA!

A música brasileira é muito rica, Belchior era muito rico. Me arrependo de tê-lo “conhecido” tão tarde. Por sorte – e uma dose de egoísmo, admito – a sua obra continuará aí para as gerações futuras.

Belchior, de fato, falava com o coração.

Obrigado, cara.

Danilo Ruffus

Jornalista, fadigado e resmungão. Sofre da síndrome do underground, acredita no apocalipse zumbi e ainda brinca de ter banda de rock.

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