Comida com cheiro de saudade

Tem muita coisa que a gente comia há 20 anos – a tia aqui tem quase 30 né, mores? – que hoje não comemos e sequer vemos nos supermercados. Não falo só do bife de fígado, bucho, moela e leite fresco, mas também de salada de maxixe, curau de sobremesa e farofas com ingredientes como testículo bovino.

Ok. Acredito que 90% de vocês, leitores, farão uma careta mais que feia ao ler sobre essas comidas. Eu entendo, é raro achar um bolinho de cérebro de boi entre coxinhas e esfirras numa estufa de bar. Mas eu sinto falta.

Sinto muita falta de comer macarrão com extrato “do elefante”, dos canudinhos de maionese, o danone caseiro que minha vó fazia com o leite trazido do sítio, ou de quando meu pai fritava mortadela no café da manhã. Sinto falta de quando Parmegiana era comida de domingo e de quando minha mãe fazia sushis de legumes (ela é ótima nisso). A maior parte das comidas foram banalizadas, o restante caiu em esquecimento e se perdeu entre food trucks, restaurantes gourmet e novos conceitos.

E o fogão a lenha então… Pobre coitado! Virou mero objeto de decoração das casas de campo. E é dessa construção de alvenaria que mais sinto falta. Não que eu tenha comido de fogão à lenha durante minha infância, mas o cheiro da lenha e os estalos do fogo me deixaram boas recordações – tão boas quanto o aroma de pena queimada que invadia a casa quando minha avó materna matava uma galinha. E o cheiro de leite fresco recém tirado da vaca? É cheiro de vida, de infância, de roça e de saudade.

Sempre fui contra o raio gourmetizador das coisas. Tudo com muito mimimi. E eu gosto mesmo de comida com gosto de vida. Com aquele sabor que desperta na gente muito mais que saciedade. Tem comida que desperta mais sentimentos que pessoas, e são dessas comidas que eu sinto falta. Tenho saudades da comida feita com a mão cheia de amor e servida para a boca cheia de vontade de comer.

Que comida desperta saudade em você?

Mariana Nogueira

Chef por formação, Social Media por destino e colecionadora de aprendizados. Acredita que a vida só faz sentido se tiver o nosso tempero.

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