Como treinar sua mãe

– Fred, o primeiro jogo é neste sábado. Preciso que você me treine, por favor!

– Mãe, mas eu não tenho coragem de jogar a bola com força em você.

Que mentira! Após um aquecimento de poucos minutos, logo perdeu a piedade. Quase me arrancou a cabeça duas vezes (graças a Deus consegui desviar) e, quando tentei agarrar as bolas dele, só não quebrei os dedos por milagre.

Fiz minha inscrição no 37 Torneio de Queimada do clube e a estreia será neste final de semana… Misericórdia!

Desde a reunião em que as equipes foram montadas, só consegui participar de dois treinos. Foram ótimos para relembrar as regras e para conhecer algumas novatas como eu, que também se descrevem como mulheres bem enferrujadas. Mas, nesses sábados, conheci também algumas das “cabeças” e “pescoços” (líderes dos times) em ação e pensei:

– O que estou fazendo aqui?

Sempre fui uma negação nos esportes. No vôlei, quando o meu saque passava para a outra quadra, “queimava” a rede. No basquete – o forte no Divino Salvador onde estudei (colégio de padres, em Jundiaí) –, as integrantes da minha equipe me ofereciam papel de carta para eu não sair do banco e participar dos jogos. No entanto, inexplicavelmente, eu me dava bem na queimada. Meu carinho por essa modalidade esportiva existe até hoje e, sendo assim, criei coragem para dar-me essa oportunidade de jogar novamente.

Descobri, nos dois treinos deste mês, que, nos jogos entre adultas, a coisa é bem mais séria. Vale queimar a cabeça e, se a bola raspar no meu cabelo, serei eliminada e irei para a linha de fundo da equipe adversária. Aliás, essa área é conhecida como “guarda campo” e não como  “cemitério”, forma como a chamávamos em Jundiaí.

Participar desses treinos e ver atletas muito experientes (algumas delas jogam há 20 anos), nos campos oficiais do clube, deixaram-me talvez mais preocupada que animada. Então surgiu a ideia de pedir para as crianças e os adolescentes do meu condomínio me treinarem.

Contei para eles que várias jogadoras tem “sangue nos olhos” e revelei até os apelidos de algumas delas. Tem a “perereca” (pula e escapa de todas as bolas) e a “coração peludo” (manda bolas “assassinas”, rsrs). Ficaram comovidos e abraçaram a missão de tentar melhorar meu desempenho. São todos jogadores assíduos de ameba, brincadeira semelhante à queimada.

O Lucca diz: “– Quando a bola vem muito forte, você desvia. Quando vem fraca, você tenta pegar.”. A Belly diz: “– Tia, você precisa aprender a agarrar a bola no peito.”. O Pedro diz: “– É verdade, agarra no peito para não quebrar os dedos.”. O Frederico (e seus amigos) aconselham quase nada. Só sabem rir quando me acertam ou quando agarram as minhas bolas. Que raiva! Acho que querem despertar em mim o tal “sangue nos olhos”.

Rezem por mim! Tanto para eu não fazer muito feio e sobreviver ao primeiro jogo – contra o time que tem a “cabeça” mais temida do torneio –, mas também para eu não me machucar muito, nos treinos com os adolescentes. Esses pareciam estar descontando, em mim, todas as injustiças que as mães já cometeram com eles.

Alessandra Possato

40tona. Paulista, filha de mineiros. Mãe do Fred e do Lucca (curte ser mãe de meninos). Apaixonada por Cinema e Dança. Estudiosa de Design, Moda e Cibercultura. Publicitária e professora universitária. “O que se leva da vida é a vida que se leva”.

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