A consciência é negra porque o racismo é real

Dia 20 de novembro, como a maioria das pessoas sabe, é lembrado o Dia da Consciência Negra. Neste dia, no ano de 1695, o líder do Quilombo dos Palmares, Zumbi, foi morto em um combate defendendo seu povo. Muito mais do que Princesa Isabel, que assinou uma lei que pouco fez pelos negros, Zumbi, sim, – ao lado de sua esposa Dandara – é símbolo de luta e militância para os negros e negras do Brasil. Por isso, desde 2003 esta data é lembrada em todo Brasil.
O problema é que é muito comum ver pelas redes sociais mensagens falando que o Dia da Consciência Negra deveria, na verdade, ser o dia da consciência humana. Ou que somos todos iguais. Ou que os negros querem privilégios. Mas a verdade é que quem diz esse tipo de coisa pouco reflete sobre o que acontece, de fato, no dia a dia de quem é negro.
Pra começo de conversa, eu, mulher branca, não tenho vivência para falar sobre o que é sofrer racismo. Inclusive, pensei algumas vezes sobre se eu deveria ou não escrever este texto, porque este não é meu lugar de fala. Tentar mensurar o tamanho desse tipo de violência neste texto seria absurdo, já que nunca vivenciei na pele qualquer tipo de discriminação por conta da minha cor. Mas escolhi falar com base em alguns dados e, inclusive, reconhecendo aqui meu privilégio.
Então lá vão alguns números que podem ajudar a engrossar o caldo dessa discussão:
Em 2015, a última PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio) mostrou que o número de pessoas que se consideravam negras ou pardas no Brasil era de 54%. Mas essa porcentagem sobe muito se formos analisar os 10% mais pobres do país: entre eles, 75% são negros. Enquanto entre os 1% mais ricos, apenas 17,8%. Cerca de 3/4 da população beneficiada por programas de transferência de renda são negras, e, entenda: isso não é nenhum privilégio, é o mínimo que deve ser feito após três séculos de escravidão que nunca foram, de fato, reparados.
Em 2012, 77% dos jovens mortos no Brasil eram negros. A cada 23 minutos, um jovem negro morre.
Se a violência contra a mulher no Brasil já é gritante, contra a mulher negra fica ainda pior: 62% das vítimas de morte por agressão são negras. O que indica uma necessidade de fazer recorte de classe para se pesar, honestamente, sobre o feminismo. 
No mundo do trabalho, apenas 4,7% do quadro dos executivos das 500 maiores corporações do Brasil é ocupado por pretos ou pardos. Em um país que tem quase metade da população negra.
O homem negro recebe apenas 64% do salário do homem branco. A mulher negra, 50%.
71% das pessoas assassinadas por aqui são negras. 
61,6% da população carcerária é negra. 
Apenas 12% dos negros estão na faculdade.
 
Estes são apenas alguns números para se pensar sobre como o racismo ainda é uma questão atual da nossa sociedade. É uma violência sistêmica, não pessoal. 
É só você parar pra pensar na cor da sua pele e se você já: tomou batida policial? Foi seguido em alguma loja/mercado pelos seguranças? Já deixou de conseguir um emprego por causa da cor da sua pele? Do seu cabelo? Quantos professores negros você já teve? E na Universidade? Quantos médicos seus são negros? Quantos negros você estudou/leu na escola/faculdade? 
Se você conseguir fazer esta reflexão, vai entender a importância de existir um dia para lembrar da luta da população negra. Para que sua cultura não seja apagada, sua luta não seja esquecida, e que a gente consiga desconstruir em nós mesmos o que ainda tem de racismo, bem como reconhecer todos os nossos privilégios. 
O discurso é bonito, mas, na prática, nós não somos todos iguais. E ainda temos muito o que evoluir. 
 
(Algumas opções para compreender o racismo através da arte, do ponto de vista de quem o sofre, literalmente, na pele:
Leia: Chimamanda, Carolina Maria de Jesus, Angela Davis, Djamila Ribeiro, Lázaro Ramos;
Ouça: Emicida, Elza Soares, Karol Conká, Mc Sophia, Iza;
Assista: Dear White People, What Happened, Miss Simone?, Cidade de Deus – 10 anos depois).
Julia Calixto Colturato

Psicóloga, mas queria mesmo era ser famosa. A louca dos signos (sagitariana), ama reality show e Anitta e não se aguenta quando o tema da conversa é feminismo.

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Psicóloga, mas queria mesmo era ser famosa. A louca dos signos (sagitariana), ama reality show e Anitta e não se aguenta quando o tema da conversa é feminismo.