Corram para as montanhas! Honestidade agora é crime no Brasil!

Todo mundo alguma vez na vida já ouviu falar sobre o famoso “jeitinho brasileiro”, não é mesmo?

Essa notável expressão que, infelizmente, possui mais do que um sentido, é bastante utilizada seja para se referir ao modo como os brasileiros conseguem se sobressair às adversidades impostas a ele, quanto pela sua capacidade de fazer com que a lei seja burlada e não haja punição alguma sobre isso.

O sentimento em torno da expressão também é antagônico, pois há como sentir orgulho e ao mesmo tempo vergonha dessa característica.

E isso é tão corriqueiro que muita gente nem se importa mais com algumas das atitudes praticadas em torno dessa expressão, como, por exemplo, ver alguém estacionando em local proibido com a desculpa de que vai sair logo, ou passando no farol vermelho por estar atrasado, furando filas e outras coisas que já são parte do cotidiano. Detalhe que não estamos sequer falando de suborno, gato na energia de luz ou TV à cabo e outras coisas passíveis de processos judiciais.

O que fode torna tudo meio difícil de digerir é quando essa nossa passividade diante de situações condenáveis sugere que o errado é o normal, e que, em determinadas situações em que uma pessoa se abdica do desvio de conduta, esse alguém seja taxado como inocente, um idiota…

PUTA QUE PARIU, CARA!

No último domingo (16/04) uma situação chamou a atenção da mídia justamente por ser contrário ao que estamos acostumados: durante o jogo São Paulo x Corinthians, válido pela semifinal do Campeonato Paulista, o jogador Rodrigo Caio, zagueiro do São Paulo, em uma jogada em que ele disputava a bola com o atacante Jô, do Corinthians, acabou acertando o companheiro de equipe, o goleiro Renan Ribeiro, pisando na sua coxa. O goleiro imediatamente sinalizou que havia sofrido falta e o juiz, que acompanhava a jogada de perto, logo apitou e puniu o jogador Jô, do Corinthians, com um cartão amarelo.

Acontece que esse era o terceiro cartão do atacante corintiano e isso faria com que ele ficasse fora do próximo encontro entre as duas equipes na semana seguinte; lembrando que o time de Itaquera vencia até aquele momento por 1 x 0 justamente com um gol de Jô, prato cheio para o Fair Play ser abandonado segundo a lógica de boa parte da torcida.

No entanto, Rodrigo Caio, em um momento de lucidez e de forma bastante louvável, avisou ao árbitro que o jogador do Corinthians não havia feito a falta. Sendo assim, o cartão foi anulado e o jogador corintiano não estaria mais suspenso do próximo jogo.

Em um mundo perfeito, tal atitude passaria despercebida, mas não foi o que ocorreu. Durante a transmissão da partida, inúmeras vezes os narradores e comentaristas, ainda em choque com o acontecimento, não paravam de falar sobre o assunto e a cada 10 minutos era mostrado o replay do lance. Ao fim da partida, os jornalistas ainda surpresos com um ato de honestidade, perguntaram ao zagueiro Maicon, parceiro de Rodrigo Caio, o que ele havia achado da atitude do companheiro e eis que ele…

A gente deveria respeitar a atitude do Rodrigo, foi o que ele quis fazer na hora. Se foi certo ou não, é da consciência de cada um. Mas eu prefiro a mãe do meu adversário chorando em casa do que a minha.

É muito provável que ela ficou envergonhada e tenha assistido a essa entrevista aos prantos, mas tudo bem.

Há uma frase frequentemente atribuída a Getúlio Vargas (mas ninguém sabe ao certo de quem é) que diz “aos amigos, tudo, aos inimigos, a lei”. Deve ter sido mais ou menos isso o que o jogador quis dizer, o que não deixa de ser uma puta tremenda falta de esportividade do jogador, e de senso democrático do político (se é que foi ele quem disse isso).

O problema em questão não é um jogador de futebol, no calor da emoção, sabendo da importância da partida e do dinheiro investido nele, simular uma falta, causar uma expulsão ou coisa do tipo. O problema é que a gente percebe que tá na merda quando uma atitude honesta é recriminada, vista como um erro.

Usuários das redes sociais, em especial do Facebook, também condenaram – PASMEM – a atitude do jogador do São Paulo, que entre alguns dos xingamentos foi chamado de “jogador de condomínio”. Além disso, parte da torcida são paulina justificou que o goleiro Cássio, do Corinthians, não teve o mesmo Fair Play no decorrer do jogo simulando por diversas vezes algum tipo de contusão, retardando assim, o reinicio da partida, fato que prejudicou o time do Morumbi.

Com um pouco mais de paciência talvez fosse possível encontrar algo como “honesto bom, é honesto morto”

Será que para que possamos agir com alguma honestidade, deveríamos premeditar a atitude de terceiros e fazer disso o nosso crivo ético antes de tomar determinada atitude? Não seria isso um tanto quanto presunçoso, ou mesmo, uma forma de desencadear certos preconceitos que a sociedade já possui, ainda que que de forma velada?

Mahatma Gandhi certa vez disse: “Seja a mudança que deseja ver no mundo”.

 

Não é só sobre o futebol!

Nós vivemos em um período específico e tenebroso da história em que a sociedade encara questões políticas, éticas e filosóficas como se fossem torcedores “organizados” dentro de um estádio de futebol.

Nas redes sociais, em específico, um simples acontecimento não passa despercebido pelos olhos de pessoas que gostam de impor a sua crença ideológico/partidária acima de tudo, qualquer notícia em um portal já é motivo para o início de uma discussão política.

Não existiria problema se houvesse algo um pouco mais próximo do que chamamos de democracia, porém, sabemos que não é assim. Para cada comentário há uma réplica, tréplica, xingamentos, coxinha, mortadela, vai pra Cuba, petralha. E no fim, a matéria era só sobre a nova namorada do ator Chay Suede, que votou na Dilma, e gerou toda essa discussão, mesmo que sem intenção.

Sendo assim, em um mundo em que utilizamos da mesma lógica das arquibancadas para debatermos assuntos de maior relevância e, ao tão rapidamente perdermos o bom senso, transformando tudo à nossa volta em uma batalha campal, atitudes como a de Rodrigo Caio jamais poderiam ser questionadas, em qualquer hipótese. A exceção deveria ser regra e não teríamos a necessidade de falar sobre isso, da mesma forma como já é comum notícias contrárias a essa.

E que a nossa ideia de honestidade não seja visando buscar uma retribuição, pois assim, conseguiríamos podar na raiz toda e qualquer micro-atitude inadequada que estamos habituados a praticar. Assim, o famoso “jeitinho brasileiro” poderia ficar apenas com a conotação de alguém que de sobressai às adversidades impostas a ele com o mínimo dos recursos cabíveis.

Danilo Ruffus
Jornalista, fadigado e resmungão. Sofre da síndrome do underground, acredita no apocalipse zumbi e ainda brinca de ter banda de rock.

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