De onde vem a minha roupa?

É fácil ignorar a maneira como a qual a maior parte das nossas roupas são feitas, compradas e vendidas. Até porque essa é uma preocupação relativamente nova. Todavia, os problemas em tono da moda não são mais segredo para ninguém: trabalho análogo à escravidão ou sem nenhum significado, desigualdade de gênero, exploração animal, devastação ambiental, entre outros vários efeitos colaterais da nossa forma de consumir.

Apesar de esse tema ter ganhado atenção e estar sendo debatido com frequência, eu compreendo e também tenho dificuldades de encontrar maneiras de impulsionar uma moda mais consciente, limpa e digna.

O essencial é se importar. De uma forma geral, vivemos a maioria dos nossos dias em modo automático, comendo, vestindo, comprando, usando coisas sem pensar de onde aquilo veio. E quando paro para pensar, tenho até pesadelos.

Leia um pouquinho, se informe, acompanhe canais que tratem dessas problemáticas. Por exemplo, a Organização Mundial do Trabalho e o Instituto Pacto Nacional Pela Erradicação do Trabalho Escravo possuem páginas nas redes sociais e opções de receber algumas informações por e-mail. Inevitavelmente, eu acabo lendo algumas notícias, ou mesmo que só passando por elas, e me impedem de esquecer que esse tipo de coisa, infelizmente, ainda acontece.

Em se tratando de moda e outros produtos: reduza o consumo. Compre o necessário, procure marcas comprometidas com o controle da sua produção, fornecedores, descarte. Quanto menor o caminho da produção até a sua casa, melhor. Lembram-se daquela ideia de voltar a ir à costureira? Então. Se você tem marcas preferidas, pesquise sobre ela, dê preferência para as nacionais, para mulheres que estão se empenhando em criar e vender um conceito diferente de moda. Usem o app Moda Livre, que pontua as marcas avaliando as ações das empresas em relação a trabalho escravo.

Cuide para não ser iludido. É difícil não ser trouxa, né, gente?! Mas pensa comigo aqui um minutinho: o que eu mais tenho visto em relação à sustentabilidade e responsabilidade social são marcas produzindo com tecidos feitos a partir de resíduos retirados do mar, de roupas que seriam descartadas, áureas e retalhos. E tudo isso é ótimo, mas, por exemplo, uma rede de fast fashion, que produz loucamente, muito barato, os tecidos vêm da China, que é um país com fracas leis trabalhistas e ambientais. Faz sentido você reciclar o que você mesmo está produzindo em excesso? Parece que estamos sendo ludibriados.

Estou mudando de cidade e semana passada saí para comprar uma cama nova. Pesquisei uns preços, escutei o que os vendedores tinham para me oferecer e aparentemente o material do momento para vender colchões é o tal tecido de fibra de bambu, que é ecológico, antibactericida e um ótimo isolante térmico. Eu não fiz nenhum discurso verde na cabeça do vendedor, porque sei que dá trabalho decorar os materiais de cada produto, já passei por isso. Mas não fui enganada, não achei que estava salvando o planeta se comprasse aquilo.

Tecido feito de fibra de bambu é uma grande falácia. O único fator que torna a fibra de bambu “ecológica” é o fato de ser produzida através de uma matéria prima renovável e de rápido crescimento. Mas o processo de produção usa Dissulfeto de Carbono, uma das substâncias mais tóxicas ainda usadas industrialmente e que é proibida no ocidente. E se fosse para nomear corretamente, aquilo é viscose de celulose de bambu. Chega pertinho de uma fábrica disso, tem cheiro de câncer misturado com aquecimento global.

Não fique triste se você tem uma brusinha de bambu. Eu tenho uma e me senti amigona da natureza por muito tempo usando ela. Até que eu decidi comprar outra, pesquisei e descobri isso. Informação é o canal. Se você quer algo de tecido ecológico e sustentável real, eu sugiro o Cânhamo. Sim, é feito da fibra da Cannabis Sativa. A produção geralmente é artesanal, natural e localmente produzida. Muitas possuem selo Fair Trade, que contribui para o desenvolvimento sustentável ao proporcionar melhores condições de troca e garantia para os trabalhadores marginalizados. É uma das fibras mais fortes e duráveis, com alto poder isolante e bloqueia os raios UV. Pesquisa aí que é sucesso!

Nesta segunda (24), começou a Fashion Revolution Week 2017 com o tema Money Fashion Power que vai questionar as estruturas de poder dentro da indústria da moda. Quem ganha e quem perde dentro desse sistema. É um movimento para todos, afinal, mesmo quem não gosta de moda, consome roupas, sapatos e acessórios. Não tem como fugir, somos todos responsáveis. Para participar no Instagram é só tirar uma foto mostrando a etiqueta do fabricante e usar a #whomademyclothes.

É preciso parar e pensar sobre. Até para quem trabalha com moda, muitas vezes não pensam em quem está no início dessa produção. Cerca de 80% das trabalhadoras na indústria fashion são mulheres e menos de 2% delas ganham o suficiente para viver em condições dignas. Algumas trabalham por mais de 75 horas por semana. Será que nós, mulheres e todo nosso ativismo feminista de Facebook, não deveríamos falar por elas? Se você ficou chocado com essas informações, procurem por um livro chamado As Garotas da Fábrica, de Leslie Chang, é avassalador.

Moda pode e deve ser inspiradora. Mas para isso é preciso uma luta feroz para que todos, em todos os níveis dessa produção, sejam valorizados. Não finja que não é com você.

Patrícia Paola Almeida
Trocando certezas por questionamento, em busca de uma vida mais simples, plena e consciente. Costureira apaixonada, louca pelas palavras e libriana em níveis extremos.

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Patrícia Paola Almeida
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