De São Paulo à Cidade do Cabo, meu primeiro dia convertendo Real em Rands

Spoiler: só quando cheguei a Cape Town entendi que o primeiro dia diz muito sobre como ficar de boca aberta o tempo todo

Eu decidi. Tudo bem, a vida decidiu por mim. Eu preciso melhorar meu inglês. Eu sou preguiçosa demais para aprender estudando duas vezes por semana, uma hora por dia. Guardando dinheiro, tendo a melhor família que alguém pode ter e procurando coragem até embaixo da cama. Escolhi. Mas, ÁFRICA DO SUL? Por quê?

-International Flights

Passagem, visto e horário quase ok.

Me sinto bem. Em quantos aviões eu já estive nos últimos tempos? É, tô em casa. Embarque, túnel sem fim… Um casal passa com um bebê. ‘Hello, how are you?’. Ok, não me sinto em casa. Poltrona número 50 A. Janela! Amo/sou. ‘Hello’. ‘Oi!  Você é brasileira, né? Que bom ir com você’, ela diz enquanto explica que tem 60 e poucos e está indo a Moçambique. Me sinto em casa com um pouco de pé na rua. Moçambique. Você pode imaginar? ‘Pois é menina, você precisa levantar e anda um pouco durante o voo, ok?’. Empresto meus fones de ouvido e ela a gentileza de me contar como é o voo, como é Cape Town, as pessoas, a comida que posso pedir no avião, e o cuidado: quer levantar e andar um pouco? Jesus, eu só queria tirar um cochilinho… Claro, levanto e caminho. Até que foi uma ideia.

O sol nascendo, apressado. Cinco horas antes do que de costume. Luzinha fina rompendo meu horizonte, mais apressado que o sol. Dia.

Em Joanesburgo, desço do avião. Moçambique pra um lado, voos domésticos pra outro. Algumas filas e imigração depois, ‘My name is Thais. Yeah, brazilian. No, I’ll just study english in Cape Town. OK, thank you’ Novo despacho de bagagem. ‘Can I help you?’, alguém me pergunta enquanto procuro o novo portão de embarque. Digo que não, mas ele me leva até o portão B2. ‘Do you have tip for me?’. Olho com cara de confusa. ‘Wait, I just have Real’. Ele concorda e pergunta só mais uma vez: ‘No Rands?’. No, e entrego uma preciosa nota de cinco reais. See you. Nessa hora eu já não conseguia fazer uma boa conta de quanto aqueles cinco reais estariam valendo em dólar ou, claro, em rand. Talvez nem mesmo em real. Será que hoje desvalorizou mais? Bolsas e especulações. Turismo ou comercial. Humanas. Mas foi bom – penso – o portão era mesmo distante. Hum. It’s OK.

Mais um voo. Poltrona 58 A. Janela. Me sinto feliz. O dia caminhando. Cape Town International  Airpoint. Meu conterrâneo da Agência Planeta África me espera e, claro, um novo chip também. By the way, o Wifi dos aeroportos são um oásis em meio deserto. Me sinto viciada em internet. Mas olho ao redor e todos estão, então tudo bem. Grande chegada com um grande guia e passo a passo a cidade montanha vai se abrindo.

Olá, Table Montain! Hello, companheiras Devil’s Peak e Lion’s Head. As duas últimas são uma grata surpresa que completa a paisagem. Está mais quente do que em Joanesburgo, mas ainda parece uma pintura de cores frias lá fora. Azul Montains. Sinto mais frio quando me dizem que em julho a temperatura cai bem mais. ‘Em julho você pode ver até neve lá no topo das montanhas’. Congelo. Sabia que devia ter trazido mais casaco.

Passamos pelo centro. Cidade grande. Cidade com história nos detalhes. Chegamos em Sea Point. O azul ainda é intenso, mas um quentinho toma conta. ‘Quantas famílias!’. Bicicletas, skates, futebol. Brasil, é você? Parquinhos, orla, o mar azul, algas, bancos com palavras como ‘Respect’. Brasil, podia ser você?

Chego à escola. LAL. Uma quadra da orla. Poderia ser melhor? Na rua do Mc Donald’s e de muitos outros restaurantes. É, melhor assim. Felicidade. Chego no quarto. A tomada… cadê a tomada? O que é essa coisa com três buracos na parede onde devia estar… ah, a tomada! Tristeza. Vou para a recepção: COMO É QUE EU FALO ADAPTADOR EM INGLÊS? Melhor do que o google, só a mímica. ‘OK, thank you’.

Atravesso a rua. ‘Hello, I want to buy an..’ ‘Are brazilian, rigth?’ Gente. Brasileiro será que tem cara? Falei tudo errado? Meu novo amigo é um especialista no Brasil. Sabe falar algumas palavras em português, que aprendeu com os alunos da escola. ‘Bom dia, meu amigo. Obrigado! De nada’. Saio feliz. Caminho uma quadra, e o mar. E música na areia. Crianças, famílias, Robben Island. ‘Eu realmente vou precisar de muitos anos para explicar porque a África do Sul’. E esse foi só o primeiro dia.

 

Reprodução

Thais Fernandes
Jornalista de agricultura, de café, de cultura, de gente, de viagens. Avoada. Feminista em transformação. Andando devagar, com fone de ouvido pendurado no pescoço e coração flutuando no peito. É brega, mas é sério.

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