Desculpe o transtorno, mas preciso falar sobre o desfile do Emicida e do Ronaldo Fraga na SPFW

Não, eu não sou a mais entendida de moda. Também não me imagino em um evento desses. Mas não podemos deixar passar que esse ano, a São Paulo Fashion Week (SPFW) mostrou a representatividade e a diversidade em um mundo cheio de padrões. Desta vez, dois grandes nomes se destacaram – Emicida e Ronaldo Fraga – e mostraram que a passarela não foi feita apenas para moças altas e magras que exalam beleza. Desta vez o público se emocionou e aplaudiu de pé.

Créditos: Ze Takahashi / Fotosite

O rapper Emicida, juntamente com seu irmão Evandro Fióti, em estreia no evento, lançaram a marca LAB e encerram o primeiro dia da SPFW tendo como protagonistas do desfile modelos negras e negros (a maioria), plus size, cabelo black power e um modelo com vitiligo.

Fico aqui pensando qual foi a reação das pessoas quando a diversidade invadiu a passarela. Neste momento eu queria estar na plateia. Antes do desfile começar, Emicida fez uma breve apresentação e disse: “Estou pra falar isso pra vocês há 400 anos”. E após a frase, os modelos começaram a entrar. Sério, é de arrepiar. O Brasil e o mundo ainda precisam avançar muito quando o assunto é racismo e preconceito. Chega a ser bizarro, se não fosse trágico, que milhares de negros ainda sofrem injúria racial – a maioria dos ataques é feito através da internet. Pra finalizar, o muso ainda disse: “Hoje é o dia que a favela invadiu o Fashion Week”. Invadiu e invadiu bonito, mostrando pessoas comuns, igual a você que está lendo esse texto. Tenho certeza que muitas pessoas se sentiram representadas com esse desfile e vão continuar na lutar por um mundo mais justo.

A coleção apresentada chama-se Yasuke – nome dado também pelos negros samurais. É possível notar referências à cultura africana e asiática. Se você ainda não teve tempo de assistir, clique aqui e se emocione também.

Créditos: Marcelo Soubhia/Agência Fotosite

Créditos: Marcelo Soubhia/Agência Fotosite

Do outro lado, temos Ronaldo Fraga. O Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais, aproximadamente 100 por ano. De acordo com a pesquisa da organização não governamental (ONG) Transgender Europe (TGEU) – rede europeia de organizações que apoiam os direitos da população transgênero -, entre janeiro de 2008 e março de 2014, foram registradas 604 mortes no país.

Um relatório sobre Violência Homofóbica no Brasil, publicado em 2012, recebeu no Disque 100, 3.084 denúncias de violações relacionadas à população LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transgêneros). De acordo com o documento, esses números apontam para um grave quadro de violência homofóbica no Brasil. O desfile do estilista mineiro Ronaldo Fraga nesta edição da SPFW chamou atenção para isso. No total, 28 transexuais e travestis foram convidadas por ele para vestirem sua nova coleção verão 2017: El Dia Que Me Queiras. Nesse momento foi levantada a bandeira contra a transfobia.

Os vestidos foram inspirados nos anos 1920, 1930 e 1940 e o detalhe do sutiã propositalmente aparecendo dava o tom de protesto. Em uma de suas entrevistas, Ronaldo Fraga ressaltou que este “foi um ato político, já que vivemos em um país onde temos Jair Bolsonaro, Marcelo Crivella – que foi eleito prefeito do Rio de Janeiro – e uma relevante bancada religiosa no congresso. Isso é fazer política, é minha forma de protesto”. O desfile foi magnífico, mas o que realmente importava naquela passarela era a mensagem que o estilista estava apresentando. Para que não assistiu, clique aqui.

O discurso de ódio feito por diversas pessoas é assustador. Apontar o dedo na rua, usar a bíblia como forma de “protesto” – até hoje eu estou procurando o trecho que eles tanto utilizam, mas acho que só existe na deles porque na minha fala sobre “amar o próximo”. Não se identificar com o corpo que nasceu e gostar de uma pessoa do mesmo sexo não é uma doença, não é um problema, não é uma escolha, é uma vida. A sociedade que precisa aceitar e compreender essas mudanças – porque dói menos.

Quem não tem aquele amigo (a) gay que não consegue se assumir porque a família é conservadora demais? Quem não acompanhou a história daqueles que são expulsos de casa? Quem não leu diversas notícias sobre homofobia? Imagina como eles não se sentem por simplesmente terem restrições para serem quem são. Cuidado ao sair na rua para não sofrer violências ou discriminações, cuidado com o modo de se vestir, de falar, de se portar. Poderíamos ficar aqui falando inúmeras situações.

Outro detalhe: parem de taxar transexuais e travestis como prostitutas. O desfile mostrou que elas podem ser o que quiserem – modelos, advogadas, jornalistas, mães de família, engenheiras – ou vocês acham que elas escolhem essa vida por livre e espontânea vontade? Saiba que o seu preconceito é o financiador desta condição.

Lutar por seus direitos é uma obrigação. Das mulheres, dos negros, dos LGBT, das crianças, dos idosos, dos portadores de deficiência e de quem mais quiser abraçar a causa. Emicida e Ronaldo Fraga deram mais um passo. Um brinde à representatividade e à diversidade!

Letícia Minutti
Jornalista. Geminiana. Apaixonada pela vida e fã do Latino nas horas vagas. Não importa o que aconteça, ria, mesmo que seja de nervoso. Se nada der certo? Segue o baile. E se der certo? Continua seguindo o baile.

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