Disjointed – Uma confusa variedade alternativa

Se dedicando fortemente ao conteúdo de nicho, a Netflix trouxe ao seu catálogo mais uma produção diretamente voltada a um público específico. Dessa vez, usuários de maconha, curiosos e simpatizantes são convidados para uma experiência completamente inovadora e audaciosa sobre as Green Shops da Califórnia, onde a erva é legalizada inclusive para fins recreativos. Produzida pela Warner, Disjointed foi disponibilizada mundialmente no último dia 25 através do catálogo da plataforma, o que lhe rendeu o título de Original.

Como é possível notar nas transições entre cenas, o show é assinado por Chuck Lorre, diretor também responsável por Two and a Half Men e The Big Bang Theory. É difícil decidir se o formato sitcom – com as risadas de fundo – é responsável pelo resultado nada satisfatório da trama, ou se a carga dramática foi mal executada, mas o fato de que diversos fatores colidem o tempo todo é tátil e vem gerando bastante desconforto no público.

A sensação é que a proposta da série era trazer personalidades mais complexas em seus personagens, mas recorreram à questão emocional para moldá-los. Por exemplo, a proprietária ativista e defensora da vida simples é na verdade extremamente egoísta e super protetora, características que são jogadas na história sem qualquer cuidado, com um conflito denso entre ela e seu filho logo na segunda cena da série. Isso resultou em personagens nada consistentes que enfraquecem o enredo de maneira considerável.

Apesar da trama conturbada, o texto por sua vez merece grande destaque. De maneira singular, é entregue ao público tanto piadas quanto críticas extremamente pontuais e inteligentes. Não são explorados apenas os preconceitos como o racismo, mas também trazem pontos contra a Cannabis em todos os níveis possíveis. Dentro das críticas, o público é convidado a conhecer não só as pessoas que tradicionalmente são contra a cultura, mas também o preconceito existente entre os usuários, como o caso dos stoners, que escolhem fazer uso constante e, em alguns casos, realmente perdem o controle do seu consumo. Até mesmo as ligações e comparações entre a maconha e outras drogas mais pesadas são trazidas à tona, tal como a efetividade da erva no tratamento de distúrbios emocionais como ansiedade e depressão.

Outro ponto que merece destaque é a ousadia na montagem da série. Vídeos no YouTube integram a tela, o que garantiu uma ambientação bastante atual para a história. Outra presença constante são as cenas desconexas e aleatórias, que praticamente endereçam o programa ao seu público, além de diversas propagandas – reais ou não – de produtos direcionados a essa cultura. Também contamos com o brilhante uso de animações psicodélicas, que trazem temas e partes da história de forma abstrata como o efeito da maconha no cérebro dos personagens, ou questões extremamente delicadas como o estresse pós-traumático.

A questão histórica também é uma grande força da série. A normalidade do consumo nos primórdios das civilizações é enaltecida na abertura, que foi inteiramente reproduzida com cenas reais de antes da proibição americana, onde todos os convidados desfrutavam do THC de forma muito amigável. A oppening traz ainda uma interação inovadora: a partir do episódio três, a abertura se acelera nos primeiros segundos, o que se tornou perfeito no formato maratona.

Com dez episódios de em média 30 minutos, Disjointed é um grande conflito entre acertos e erros que colidem de forma constante, mas que não vão ficar te devendo boas risadas. Confira o trailer:

 

 

Jôicy Franco
Social Media, 24 invernos.
Basicamente um desenho animado tentando sobreviver no mundo real.

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Social Media, 24 invernos. Basicamente um desenho animado tentando sobreviver no mundo real.