Em edição chamada #trans, SPFW apresenta mudanças e exalta cultura da periferia

(Foto: Agência Fotosite/divulgação)

Emicida foi o mais celebrado junto a seu irmão Evandro Fióti, graças ao desfile de estreia de sua LAB – que levou à passarela roupas democráticas e modelos fora do padrão

Emicida apresentou, na semana passada, na São Paulo Fashion Week, a coleção de sua LAB, marca que toca em parceria com o irmão Evandro Fióti há alguns anos. Foi um show! O rapper entrou cantando na passarela antes dos modelos tomarem conta do espaço, assistiu tudo da primeira fila e voltou junto com a fila final. E esqueça o estereótipo, Emicida e Evandro Fióti exibiram as suas roupas em pessoas comuns, que representam a diversidade que a LAB tanto exalta. Entre rimas, a trilha sonora tinha cantos africanos, mensagens positivas e um refrão que dizia: “bendito, louvado seja…”.

Esta é a estreia da grife na semana de moda mais importante do país e mostra que, a cada dia que passa, o movimento que vem das ruas ganha mais força no universo fashion. Para a primeira aparição na SPFW, os músicos, nascidos na periferia, mantém o conceito que criaram lá atrás: roupas com pegada street, shapes folgados e influência rapper. A evolução aparece nas referências que foram buscar no Japão e nas tribos africanas e na clara mensagem que querem passar: a moda é, sim, para todos. Para viabilizar o negócio, os irmãos contaram com uma consultoria de mercado de moda e convocaram o também estilista João Pimenta para ser auxiliar técnico do projeto.

 

Desfile e show à parte, a entrada da LAB na SPFW movimentou uma semana de moda que tinha tudo para ser monótona. Nos corredores, falou-se muito sobre a diversidade proposta pela marca e como isso devia virar hábito. Foi legal ver um mercado tão fechado, como o da moda, vibrando com algo que tem as origens tão distantes de Paris, Milão ou qualquer outra cidade luxuosa. Também foi muito legal ver tantas fotos e textos nas redes sociais relacionadas a um produto que tem ticket médio de cento e poucos reais. E, acredite em mim, ainda mais e mais legal desejar peças com preços que cabem no nosso bolso e já estão lá prontinhas para serem compradas – sim, porque a LAB foi a única a realmente cumprir o see now, buy now proposto pelo evento.

 

Pouco antes do desfile começar, conversei com Emicida, Evandro e João Pimenta para a L’Officiel (revista em que trabalho). Um pouco desse bate-papo você lê aqui:

 

Emicida: Qual é a fita?

Júlia: Eu é que te pergunto, qual é a fita?

Emicida: Cara, estamos aqui malucos com a oportunidade de apresentar nosso trabalho daqui a pouco. Agora, sou 99% músico e 1% estilista.

 

Júlia: E qual é a sensação de trazer a cultura da periferia e o rap para as passarelas da SPFW?

Emicida: É uma honra e uma grande conquista. Somos os primeiros a conseguir isso, me sinto muito honrado, mesmo. Espero também que isso seja uma abertura de caminhos para que muita gente possa fazer o mesmo. É um movimento que todo mundo sai ganhando. Nós ganhamos, o evento ganha e o Brasil ganha. Precisamos mudar esse estereótipo de beleza que não combina com a realidade do brasileiro. A moda tem que ser para todo mundo, tem que servir no corpo de todas as mulheres. Temos que expandir o conceito e falar com todas as pessoas deste país gigante e tão cheio de diversidade.

Evandro Fióti: Me sinto feliz por abrir caminho e servir de exemplo. Do mesmo jeito que a música nos indicou o caminho e nos deu todas as oportunidades para que estejamos aqui hoje realizando tudo isso, quero servir de exemplo para a molecada das quebradas. Sempre penso nisso, temos que mostrar o caminho e provar que tudo é possível, desde que se trabalhe duro e seja focado. É muito legal ver a nossa galera tão contente e orgulhosa do que conseguimos. Óbvio que existem haters na internet dizendo que estamos perdendo as nossas origens, mas é totalmente o contrário, estamos apresentando nossas raízes e cultura para o mundo, transmitindo a nossa mensagem.

 

Júlia: E como é o processo de criação de vocês?

Emicida: Para esta coleção, o João nos ajudou muito. Fomos trazendo referências e ele foi colocando tudo no papel. Eu já desenhei muito, mas desta vez fiquei mais focado em construir o conceito da coleção e garantir que tudo saísse exatamente do jeito que queríamos – sem perder a nossa essência. É um trabalho muito coletivo, estamos o tempo todo em contato trocando ideias. Para esta coleção, temos referências africanas e japonesas, sobretudo do Yasuke, um samurai negro.

João Pimenta: Por incrível que pareça, Emicida e Fióti têm muito mais fluxo e organização do que eu, que sou estilista há anos. Eles me apresentam referências, shapes e sabem direitinho o que querem fazer. Eu fico responsável por colocar as ideias no papel. E vou te confessar uma coisa: hoje, acho que pela primeira vez, estou fazendo moda de verdade (risos).

 

Júlia: Acho que são tipos diferentes de moda, não?

João Pimenta: Talvez. Sempre fiquei preso no conceitual, na arte, mas isso nunca tomou às ruas. Agora, graças aos dois, me sinto fazendo algo para o povo. Já estou ansioso para ver as pessoas usando as peças da coleção por aí… Vai ser uma sensação nova. Talvez, depois de velhinho, eu tenha descoberto o que é moda de verdade.

 

Júlia: Vocês pretendem continuar com a parceria?

João Pimenta: Sem dúvidas. Tomara que tenha vida longa. Acho que a nova fase da LAB tem tudo para dar certo.

Evandro Fióti: Trabalhar com o João tem sido incrível. O aprendizado é gigantesco. E posso falar? Me faz feliz vestir um terno dele para uma ocasião especial. Consegui isso graças ao meu trabalho. Hoje, com essa parceria, e digo hoje porque as roupas já começam a ser vendidas agora no esquema see now, buy now, o povo todo vai poder vestir um terno desenhado por João Pimenta. O nosso lance é esse, promover um intercâmbio entre esses dois mundos. Me sinto muito orgulhoso deste projeto, estamos fazendo história.

Júlia Tibério

Jornalista de moda, leonina, compras imaginárias, gosto pelo difícil. Alegria, alegria.

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