Era só mais um(a) Silva

Imagem: Thais Linhares/ Liberdade para Tatiane

Imagine a cena:

Um pai de família, casado com uma mulher que atualmente não trabalha e, consequentemente, é responsável pelo cuidado dos filhos. Acontece que esta mulher, desde que ficou desempregada, passou a fazer uso abusivo de cocaína e começou a mudar seu comportamento. Ameaça o marido de tirar a guarda das crianças, é violenta com todos ao seu redor, apresenta ciúme doentio do esposo. O marido, que não tem as melhores condições financeiras, se vê obrigado a trabalhar de segunda a segunda para sustentar a casa e, por recomendações médicas, não pode deixar o filho mais novo na escolinha e tampouco tem dinheiro para pagar uma creche para ele. A esposa é a única opção de cuidado para este filho e, como ela já está apresentando melhoras, ele opta por deixá-lo com ela.

Um dia ele chega em casa e descobre que a esposa bateu no filho a ponto de deixá-lo cheio de hematomas e respirando com dificuldade. Ele até tenta levá-lo, com um ano e dois meses na época, ao hospital, mas ele não resiste e acaba falecendo. Ao ser informada sobre o caso, a polícia entende que o melhor a se fazer é prender este pai.

Parece absurdo, não é? Mas a história é real, a única diferença é que este pai de família, na verdade, é uma mulher e atende pelo nome de Tatiane da Silva Santos.

Uma mulher, negra, da periferia. Os pais eram dependentes químicos e ela viveu, logo na infância, um ciclo de violência em casa. O pai agredia a mãe, que agredia Tatiane e seus irmãos. Fugiu para a casa da vó tentando romper este ciclo. Aos 17 anos, com o ensino fundamental ainda incompleto, teve seu primeiro filho. Pouco tempo depois, conheceu Amilton, por quem se apaixonou e, depois de oito meses juntos, engravidou. Foi então que decidiram morar juntos.

O relacionamento parecia estável até que Amilton perdeu seu emprego e passou a usar e vender droga. Ele se mostrou alguém extremamente violento, controlador e obsessivo. Pressionava para que Tatiane abandonasse seu emprego e chegou a agredi-la com uma faca, agressão esta que deixou uma cicatriz em seu braço.

Tatiane se via, mais uma vez, no meio de um ciclo de violências com o qual não conseguia romper. Tentou fugir de casa, mas sua mãe e seu marido a encontraram e obrigaram a voltar. Tatiane procurou proteção do Estado por diversas vezes, porém em nenhuma delas alguma medida efetiva foi tomada. Após uma separação, Amilton, inclusive, chegou a ameaçá-la por não cumprir a decisão judicial que a obrigava a deixá-lo ver seus filhos aos sábados.

Ao se ver completamente desamparada e sem outra opção, Tatiane volta a morar com o marido. Em 2013, em decorrência de um problema de saúde de Diogo (o filho mais novo), se viu obrigada a deixá-lo em casa aos cuidados do pai, que parecia estar melhor e, finalmente, responsabilizava-se pelo filho, o que a deixava mais tranquila.

Porém, ao chegar em casa em um sábado, deparou-se com seu filho cheio de hematomas e com dificuldade de respirar. Apesar de ter sido levado ao hospital, não resistiu e veio a óbito. O marido fugiu. Além de ter que lidar com a perda de um filho, Tatiane foi denunciada por homicídio qualificado por motivo torpe, além de tortura e maus tratos, porque deveria ter cuidado de seu filho em vez de deixá-lo com um “indivíduo sabidamente violento”, conforme aparece na denúncia. Ela foi chamada de masoquista, mãe desnaturada e narcisista.

Foi presa em 2013 e julgada apenas em 2016. O Conselho de Sentença – composto por sete juradas mulheres – condenou Tatiane a uma pena de 22 anos, dois meses e 22 dias de prisão, pena esta que aumentou no ano seguinte para 24 anos, nove meses e dez dias. Os outros dois filhos de Tatiane estão abrigados e ela não consegue, sequer, ter informações deles.

E por que não se ouve falar em Tatiane? Por que o Jornal Nacional, ou qualquer veículo da grande mídia, não fala sobre isso? Por que não tem a hashtag #somostodastatiane?

Porque não importa. A vida de Tatiane, mulher, preta, pobre, periférica, não importa a ninguém. Nunca importou e, por isto, ela foi submetida a inúmeros tipos de violência durante sua vida. Foi violentada por seus pais, por seu marido, negligenciada pelo Estado – que diz que Amilton era um sujeito sabidamente violento, mas nunca fez nada para protegê-la – e agora, mais uma vez, violentada. Invisibilizada. E, ainda por cima, culpabilizada por toda violência que sofreu durante a vida.

Tatiane existe e resiste. Tatiane precisa ser lembrada não só por sua história, mas, principalmente, por todas as Tatianes que existem e seguem sendo esquecidas. E seguem sendo vítimas de uma justiça que é racista e misógina, que não protege a mulher na condição de vítima, mas é mais severa com a mulher na condição de ré. E se a gente não falar sobre ela, quem vai lembrá-la?

Julia Calixto Colturato

Psicóloga, mas queria mesmo era ser famosa. A louca dos signos (sagitariana), ama reality show e Anitta e não se aguenta quando o tema da conversa é feminismo.

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Psicóloga, mas queria mesmo era ser famosa. A louca dos signos (sagitariana), ama reality show e Anitta e não se aguenta quando o tema da conversa é feminismo.