Escreva sim! Por amor e não por dinheiro

FOTO: Adeus – Carol (Capa: Carol Moura)
FOTO: Carol Moura – 2 (Arquivo Pessoal)

FOTO: Carol Moura – 2 (Arquivo Pessoal)

Autora Carol Moura assinando o contrato de publicação de seu primeiro livro “Sem dizer adeus” pela Alvo Editorial

Quando você coloca no Google: “ser escritor no Brasil”, automaticamente o cursor de pesquisa completa “dá dinheiro?”. Essa é uma das perguntas mais populares registrada pelo buscador mais famoso da internet.

Sim, alguns escritores têm sorte, ou um Q. I., ou para ser mais sincera: um agente e muito dinheiro. Não digo que é muito fácil ser escritor como um todo, mas no Brasil lidamos não apenas com a falta de oportunidades, mas também com a falta de interesse pela leitura.

Uma pesquisa feita pelo Ibope em 2015 ouviu cerca de cinco mil pessoas e mostrou que apenas 56% da população lia um livro. Em contrapartida, 30% nunca leu, o que é desestimulante. A média de leitura por ano é de 4,96, quase cinco livros, sendo apenas dois por vontade própria. A matéria completa está no Estadão.

Tudo bem, uma pessoa só lê no máximo cinco livros por ano, não dá nem a saga de Harry Potter inteira, que dirá um livro meu? Um mísero livro meu. Sim, não é só eu que me pergunto isso, mas, já disseram que a esperança é a última que morre? Estamos falando de cinco mil entrevistados, uma projeção muito pequena se comparada aos nossos 204 milhões de brasileiros, contando eu, você, os mais novos, da nossa idade e os mais velhos… E nesse meio de 200 e tantos milhões, vai ter aquela parcela que lê de tudo.

E mais: que valoriza a nossa literatura brasileira. Ler José de Alencar e Machado de Assis é uma ajuda. Ler Carina Rissi, Thalita Rebouças e Paula Pimenta também. E ler novos escritores? É um desafio e tanto se lançar no mercado editorial brasileiro, mas não é impossível.

Vai por mim, minha gente, é um caminho longo a ser percorrido. Não é rápido, mas o que dá ânimo é começar pela internet. A rede social canadense do Wattpad, por exemplo, conta com mais de 40 milhões de usuários no mundo todo e cerca de 800 mil usuários do Brasil.

E entre os 800 mil, o Wattpad e comunidades antigas do Orkut me apresentaram três autoras que estão despontando no mundo da escrita. Não, elas ainda não deixaram de lado suas carreiras de formação, mas, o atual feedback é uma grande possibilidade para conquistarem o espaço que tanto almejam.

São escritoras de norte a sul, a começar pela psicóloga Indira Arrais, de Teresina (PI), a coordenadora de serviços Carol Moura, de Brasília e a dentista Tânia Picon, de Porto Alegre (RS). A Indira e a Tânia conheço desde os tempos de Orkut, quando lia as fanfictions delas. Já a Carol conheci por meio do SPAA (Suporte para autoras anônimas), na qual fizemos uma grande parceria para crescermos no mundo mágico da escrita… Mas na internet.

FOTOS: Carol Moura (Arquivo Pessoal) / Dira (Arquivo Pessoal) / Tânia (Arquivo Pessoal)

FOTOS: Carol Moura (Arquivo Pessoal) / Dira (Arquivo Pessoal) / Tânia (Arquivo Pessoal)

Três amigas que viram as vantagens de publicar de forma independente

As três começaram entre 2008 e 2009, com fanfictions, traduzindo ficção feita por fã. Carol começou escrevendo fanfics de Crepúsculo, enquanto Indira e Tânia começaram escrevendo fanfictions de Orgulho & Preconceito e, aos poucos, foram desenvolvendo histórias originais.

Para elas, o Wattpad foi uma porta de entrada para a escrita na internet. “No começo não vi muita vantagem. A Tânia que encontrou o Wattpad e insistiu para que eu começasse a postar”, conta Indira, que não se sentiu tão estimulada, mas aos poucos viu seu reconhecimento chegando na plataforma. “Hoje, eu vejo a plataforma interessante para dar visibilidade a novos talentos”, conta a psicóloga que já levou quatro livros para a Amazon.

“[O Wattpad] é vantajoso para aliviar meu estresse. E também para ter quem me lesse”, explica Tânia. “A Indira foi a minha primeira leitora, que mais tarde se tornou a minha melhor amiga e me estimulou bastante, se não fosse ela eu já teria desistido no primeiro livro”, completa. Ela e Indira costumam trocar capítulos por e-mail e discutir obras. Elas são grandes fãs uma da outra, e essa é uma das vantagens de se escrever na internet: não se cria competitividade e muitas ajudam umas às outras.

De fanfiction a original, Carol Moura se surpreendeu com o feedback do público. “Comecei com fanfics de Crepúsculo por não gostar da maioria dos destinos dados aos personagens. Apenas no ano passado que abri meus olhos para algo realmente rentável, e deu certo”, conta.

Carol fala da Amazon, onde é possível publicar ebook – os famosos livros digitais – que Umberto Eco acreditou ser impossível substituir o livro impresso (anos depois ele desmentiu 50% disso, quer dizer, ele reconhece a força do ebook hoje em dia). Eco não está totalmente certo, nem totalmente errado, afinal, o ebook é uma plataforma que ainda está engatinhando. A vantagem da Amazon é publicar de forma independente com facilidade e rapidez. Sem contar o preço mais acessível para os livros e promoções gratuitas.

A Amazon oferece o sistema KDP (Kindle Direct Publishing), em que o autor se inscreve, coloca o livro e em até 48 horas ele está disponível no site, por um preço “camarada” e de graça pelo Kindle Unlimited (sistema de assinatura para ler no Kindle). Além disso, os royaltiess são de até 70%.

“Do Wattpad para a Amazon foi como se fosse um pulo natural”, exemplifica Tânia. A autora conta com 11 obras publicadas na Amazon, mas ela tem mais de 20 obras escritas. O site foi uma forma de mostrar seus trabalhos que estavam guardados no computador. “Tinha tantas obras no computador que eu não sabia o que fazer com elas antes de conhecer os dois sites. Levo obras que eu leio e gosto, e, por esse motivo, quero que outras pessoas leiam, as que eu já gostei deixo no Wattpad”, conta.

E foi com dicas de amigos que conheceu no Wattpad que ela foi conhecendo e se informando sobre como ganhar dinheiro com seus livros. “Dá retorno, porém, lentamente. As coisas têm vindo bem devagar, mas a cada dia vem leitor novo, o que traz uma realização e satisfação pessoal”, conta.

“Arrastada pela Tânia” Indira conheceu a Amazon em 2015, quando lançou o romance Novo Horizonte. Ah, uma curiosidade: fã do cantor Leoni, cada capítulo do livro tem o título ou passagem de uma música do cantor. Quando escrevia, ela pediu a autorização ao cantor para usar algumas passagens, e quando o livro ficou pronto, ela mostrou o trabalho para ele.

Foto: Dira – Novo Horizonte (Capa: Gabriella Regina) / Leoni – Novo Horizonte (Arquivo Pessoal)

Foto: Dira – Novo Horizonte (Capa: Gabriella Regina) / Leoni – Novo Horizonte (Arquivo Pessoal)

“Novo Horizonte” teve a bênção de Leoni; penso em fazer isso também, mas teria que vender um rim pra falar com o Paul McCartney… Rim à venda!

Indira nunca imaginou receber dinheiro por algo que escreveu, mas ficou satisfeita com o retorno. “Fiquei eufórica quando comecei a ver meus livros sendo vendidos e lidos pelo Kindle Unlimited [que gera lucro por página lida]. Para quem não esperava nada, tem sido bem interessante e ajuda a pagar as contas no fim do mês”, explica.

Para Carol, a Amazon se tornou um caminho para o sucesso que ela não esperava. “Amadureci a ideia, e quando lancei, em novembro do ano passado, o retorno foi muito alto e ficou entre os mais vendidos por alguns dias no site”, explica. “Hoje o retorno é bem menor, mas acredito que tudo no país está ruim”, completa falando da atual crise no país e refletindo sobre o quão difícil está para comprar e vender. Para ela, a sua estreia na Amazon foi sorte de principiante.

Falando sobre livros… físicos!

Pode parecer utopia o que eu esteja falando aqui, mas tem editoras que vão atrás desses autores que escrevem na internet. São editoras de pequeno e médio porte, porém, demora para aparecer algo que digamos vantajoso. Primeiro porque sai caro a mão de obra, segundo que os royalts são bem baixos – em torno de 10% e outras coisas que fazem o autor pensar duas vezes antes de realizar o sonho.

Uma dica que Carol recebeu de uma amiga que trabalha em uma editora foi o que a ajudou a escolher onde lançar o primeiro livro da trilogia “Adeus”. “Uma amiga uma vez me disse que para uma editora ser honesta e valorizar a sua obra, ela não lhe cobra para lançar seu livro”, conta.

FOTO: Adeus – Carol (Capa: Carol Moura)

FOTO: Adeus – Carol (Capa: Carol Moura)

Seu livro Sem dizer adeus [http://www.alvoeditorial.com.br/#!sem-dizer-adeus/vysdq] logo estará à venda pela editora Alvo Editorial. “Fechei o contrato porque me pareceu muito sensato. Ganharei uma porcentagem em cima das vendas de minha obra e não pago o processo de publicação. Além disso, concedo os direitos autorais sobre meu livro por apenas dez meses, achei interessante”, explica.

FOTO: Capa: Gabriella Regina

FOTO: Capa: Gabriella Regina

As Maravilhas de Alice foi sucesso no Wattpad, um dos mais vendidos na Amazon e está no catálogo da Alvo Editorial

Também pela Alvo Editoria, Tânia Picon publicou As maravilhas de Alice, que já está à venda pelo site. Ela voltou a escrever no ano passado, havia pausado para cuidar de suas duas filhas, que hoje estão com cinco anos. Sim, gente, são gêmeas. “Quando voltei a escrever, comecei a receber algumas propostas, e resolvi publicar As maravilhas de Alice, porque é meu sonho ver meu livro em uma prateleira”.

Durante esse tempo, Tânia recebeu diversas propostas. “Recebi muitas propostas que percebi que eram ciladas e que eu sairia prejudicada. Hoje, eu tenho em mente que não quero pagar [um valor absurdo] para publicar meus livros. Ainda prefiro continuar no Wattpad e na Amazon”, completa.

É preciso estar sempre atento quanto as exigências das editoras. Direitos, divulgações, gastos com publicidade e no material contam e muito. Dependendo da proposta deve-se questionar tudo nos mínimos detalhes. “Muita gente se empolga com essas propostas, mas tem ‘editoras’ que cobram uma verdadeira fortuna para publicar. É importante ler, no caso leia junto com um advogado”, aconselha Indira. “Imprimir não é o mais difícil, divulgar e vender que são outros quinhentos”.

Com toda a propriedade não posso dizer que todo escritor faz sucesso e ganha dinheiro no Brasil, tudo é sorte nesse meio. Posso lançar um livro amanhã, ganhar muito dinheiro, abandonar o Tipzine e morar em Paris, como também pode ser um [provável] fracasso de vendas, não vou para Paris e vou continuar escrevendo no Tipzine… Mas, até se fosse sucesso continuaria aqui, no Tipzine, escrevendo direto de Paris, claro.

O fato não é apenas escrever para ter dinheiro, mas também gera um custo emocional e psicológico para criar. “Não penso em fazer da escrita minha profissão, pois seria obrigada a escrever e isso deixaria de ser minha válvula de escape”, explica Tânia.

Não devemos esquecer de que ainda temos um segundo fator que torna tudo mais difícil: leitores. “Achar leitores é difícil sim. Quando entramos em algum lugar, como o Wattpad, por exemplo, em que todos querem ser lidos, ninguém te conhece, e é complicado. Mas, com o tempo uma pessoa vai indicando a outra, e foi isso que aconteceu comigo: estou sendo lida recentemente, e é o que eu realmente gosto. É a minha satisfação pessoal”, conclui Tânia.

Por enquanto, faça sua escrita por amor. Sabe, escrever está naquele mesmo grupo de se fazer comida com amor: quando colocamos nossos sentimentos dá tudo certo. Retorno financeiro é apenas uma pequena garantia. Mas, se você der certo, eu ficarei muito feliz em saber, pois tenho certeza que escreveu sua obra com muito amor.

Livros da Carol Moura na Amazon

Trilogia Adeus: Sem dizer Adeus / Aprender a Dizer Adeus/ Nunca mais dizer Adeus; Para Roxanne, com amor; Case Comigo (conto).

Livros da Indira Arrais na Amazon

Novo Horizonte; Como cão e gato (spin-off de Novo Horizonte); Confissões de Heloísa; Ano novo, vida nova e outros contos (em parceria com Tânia Picon).

Livros de Tânia Picon

As maravilhas de Alice; Como superar um amor em três listas; Amor, raiva e dois balanços; A Fera e o Belo; Perdendo o controle ; Desde que você nasceu; Doze Verões; Abrindo a porta; Outra chance para Raquel; Flor de Mel.

Ariane Godoi

Jornalista, contadora e criadora de histórias. Apaixonada por literatura, The Beatles, karaokê, lasanha e pavê. Curte aquela tarde preguiçosa assistindo séries na Netflix, tocando em um violão desafinado ou observando seus amigos como inspirações para possíveis personagens (por isso que ela só escreve comédias).

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Ariane Godoi
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