Graciliano Ramos adaptado

As manifestações artísticas em seus mais variados níveis tem o intuito de tirar o indivíduo do lugar comum, da realidade vista pelos sentidos e o levar a um patamar ainda maior. Tem obras que masturbam as impressões sensoriais, provocam de forma passageira e superficial ou ainda tem o poder de anestesiar o contemplador frente à determinada posição. Ocorre que a arte também está naquele que observa e aprecia a produção realizada. O artista depende deste sujeito para que seu trabalho possa ser de fato reconhecido.

Outra característica da arte é o seu poder de contextualização e atualidade. Se uma obra é capaz de resistir aos anos, certamente ela é uma pedra no sapato, um descontentamento diante da época em que foi criada. Eis um exemplo dessa característica. Esta é uma adaptação em formato de histórias em quadrinhos da obra de Graciliano Ramos. O autor, que no auge de sua capacidade de recorte de uma realidade crua, árida e de extremo sofrimento daqueles que tentavam escapar das desgraças das pragas da seca no nordeste, produz uma das mais brilhantes narrativas brasileiras. Seu poder de análise daquele fato perpetuou por décadas e ainda resiste nos dias de hoje. Agora, a obra ganha uma nova interpretação. Desta vez, os traços indefinidos e as cores que contrastam com a realidade de Fabiano potencializam a narrativa. O trabalho continua a provocar uma profunda reflexão social, hídrica e de condições dignas para a vida humana.

Essa foi a minha primeira leitura do gênero literatura em quadrinhos. Acredito que nem todas as adaptações sejam boas, mas, o objetivo de analisar e interpretar uma obra clássica da nossa literatura em um formato diferente já vale e muito a leitura. Aqui, especificamente, a arte dos desenhos, o argumento para o roteiro e a narrativa de Graciliano se entrelaçaram de uma maneira muito especial. O delineamento dos personagens, a precisão da descrição de determinadas cenas e o arremate textual foram os grandes diferenciais para deixar a leitura muito agradável.

Por fim, achei louvável a ideia de contextualizar uma obra tão forte e marcante como foi a prosa de Graciliano Ramos. Adaptações são sempre complicadas. Artista e roteirista estão presos a uma referência previamente estabelecida e não imaginada por eles. Essa limitação pode gerar insatisfação em alguns leitores.

 

Nelio Barbosa

Nélio Barbosa está jornalista. Amanhã pode ser herói brasileiro, craque do Flamengo ou mais um esquecível cidadão. Gosta de livros, histórias em quadrinhos e rir. Tem alergia a endorfina, passa um tanto longe de álcool e já foi fã do Wesley Safadão. Mora em Uberlândia, mestrando em Comunicação e repórter do jornal Correio de Uberlândia. No TipZine, foi convidado para escrever crônicas e sobre literatura às segundas-feiras.

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Nélio Barbosa está jornalista. Amanhã pode ser herói brasileiro, craque do Flamengo ou mais um esquecível cidadão. Gosta de livros, histórias em quadrinhos e rir. Tem alergia a endorfina, passa um tanto longe de álcool e já foi fã do Wesley Safadão. Mora em Uberlândia, mestrando em Comunicação e repórter do jornal Correio de Uberlândia. No TipZine, foi convidado para escrever crônicas e sobre literatura às segundas-feiras.

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