HITLER

1988, ano olímpico que trouxe a primeira medalha de ouro no judô com Aurélio Miguel. Nosso eterno ídolo Ayrton Senna conquistava seu primeiro título mundial. Na política, o Brasil vivia um período turbulento. Inflação e desemprego nas alturas, aprovação da nova constituição, foi decretado o fim da tortura e da censura e instaurada a liberdade de expressão intelectual e de imprensa. Tivemos ainda um ato terrorista que não deu certo. Um homem desempregado sequestrou um Boeing 737 da Vasp com intenção de jogá-lo contra o Palácio do Planalto para matar o então presidente José Sarney. Não deu certo.

Em meio a tantos acontecimentos (inclusive o meu nascimento), ia ao ar um comercial da Folha de São Paulo. Até ai nada de anormal, certo? Errado! O comercial em questão trazia algo diferente, não sei explicar ao certo. A locução? Talvez o texto? Ou quem sabe aquele monte de bolinhas pretas preenchendo a tela? O fato é que, conforme o texto vai se desenvolvendo, o telespectador fica cada vez mais curioso, afinal, o comercial apresenta fatos de alguém que fez muito bem para o seu país. Em um período de inflação beirando os 1000% no Brasil (isso mesmo, 1000%, não errei a quantidade de zeros), ouvir que um governante conseguiu reduzir, em seu país, a inflação para no máximo 25% ao ano, fez cada pessoa que assistia a TV naquele momento ter esperança de um mundo melhor. Sim, a solução existe e já foi utilizada em outro lugar, basta seguir a mesma fórmula. A tela vai se abrindo e as boas notícias não param, ele conseguiu reduzir o número de desempregados de seis milhões para 900 mil pessoas em apenas quatro anos. O pensamento é unânime: “Encontramos um salvador! ”. Eis que a tela se abre totalmente e revela o responsável por todas essas maravilhas. Os olhos colados na TV, a incredulidade toma conta de cada brasileiro. Um misto de revolta e surpresa faz o pai de família desligar o aparelho e, ao sentar em sua cadeira favorita, refletir sobre a audácia daquele comercial.

A criação foi de Nizan Guanaes com direção de criação de Washington Olivetto e direção de André Bukowinski. O comercial Hitler conquistou o Grand-Prix do Prêmio Profissionais do Ano da Rede Globo, Ouro no Anuário do Clube de Criação de São Paulo, Leão de Ouro no Festival de Cannes e o maior de todos os prêmios, foi incluído na lista de Bernice Kenner como um dos 100 melhores comerciais do mundo.

 

Mauricio Colar
28 anos, publicitário (isso já diz tudo sobre mim)

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