Kanye, apenas pare!

Sobre a semana de moda de Nova Iorque, Kanye West e o porquê as pessoas deveriam se ater ao que elas sabem fazer

Depois de seis anos trabalhando com moda, posso falar que o deslumbramento com qualquer coisa diminui bem. Giovana, uma das minhas melhores amigas e editora da L’Ófficiel Brasil, diz que é a inocência se perdendo. Talvez. Não digo que isso seja algo bom – tampouco ruim. Estou apenas constatando um fato que sinto na pele cada vez mais. Hoje em dia é difícil me impressionar – para o bem e para o mal. Nessa constante que decresce há uma frase que me acompanha mentalmente e, vez ou outra, verbalizada. “Stop making stupid people famous” (“pare de fazer pessoas estúpidas serem famosas”, em tradução livre), li certa vez; não lembro se em um Tumblr qualquer ou em uma camiseta qualquer. Talvez seja um bode enorme das pessoas em geral (tenho dessas), talvez seja mau-humor ou talvez seja um lapso de sensatez – tão escassos nos dias de hoje. O fato é que a frase faz bastante sentindo sendo eu jornalista, ainda mais de moda: tem gente estúpida por todos os lados!

Claro, o tipo em questão existe em qualquer setor e sempre achamos que a grama do vizinho é mais verde. E nem deve ser, afinal. Mas, o nível da estupidez humana é algo que, ao contrário de muita coisa que perdeu meu senso de deslumbramento, me choca bastante. Para fazer valer a máxima acima, prefiro ignorar em vez de confrontar. Só que, nesse caso, foi praticamente impossível.

Na contramão do hype, não sou uma pessoa que idolatra o clã Kardashian-Jenner, muito menos Kanye West. Não critico quem idolatre ou simplesmente goste. Só não acredito nos valores passados e muito menos em uma estética que aprisiona e sufoca. Prova dessa estética, inclusive, é a Yeezy – uma parceria entre o rapper marido de Kim e a Adidas, que já está em sua quarta edição. Na quarta-feira, 7, a Yeezy abriu a semana de moda de Nova York em um modelo de desfile que clamava pelo fracasso. A começar pelo convite.

Através da sua conta no Twitter, Kanye convidou, na semana passada, “apenas mulheres multirraciais” para integrar o casting do desfile. Não por menos, o convite causou polêmica tanto nas redes sociais quanto na imprensa, já que, pela frase, não se sabe quem deveria ser excluído e quem deveria se apresentar. E, exclusão, é algo que – ainda bem! – não tem sido bem vista no mundo da moda. Horas após o término do show, foi publicado um artigo no site The Cut, caderno de moda do The New York Times, no qual Sable Yon dizia que o casting, na verdade, foi “um pesadelo de 6 horas”.

Já no dia do desfile, o local onde aconteceria o show apenas foi passado para os convidados com 12 horas de antecedência. Todos os convidados tiverem que ir juntos para o Franklin D. Roosevelt Four Freedoms Park, que fica em Roosevelt Island – o que tomou nada menos que quatro horas e meia do dia das pessoas que confirmaram presença.

Mas, o mais grave de tudo veio depois: em um dia quentíssimo em pleno verão nova-iorquino, no meio de um vasto gramado quente idem estavam dispostas mulheres em formação militar usando peças apertadíssimas de lycra cor da pele durante mais de duas horas – que foi o que demorou para o desfile começar. Claramente, muitas começaram a passar mal, desmaiaram, precisaram sentar; outras simplesmente abandonaram a passarela. A imprensa e os convidados começaram a invadir o show para oferecer água para algumas. Um tremendo desastre, para não mencionar o descaso e as péssimas condições de trabalho oferecidas para essas meninas.

Tudo bem, é realmente confuso realizar um bom desfile em uma semana de moda, principalmente em uma das mais importantes do mundo. Mas, o que choca – e até revolta – é que há tanta preocupação com a saúde e o bem-estar das modelos, que trabalham em um meio extremamente opressor e cercadas de abusos, e, quando uma celebridade que tem visibilidade mundial traz um olhar global para a moda, para uma marca tão bacana quanto a Adidas, não há essa preocupação. É um grande “o show deve continuar”. Mas, talvez não deva. É isso o que acontece quando a mídia torna pessoas estúpidas famosas. Talvez essa mesma mídia, como bem disse Stella Bugbee, deveria encerrar por aqui a exaltação e mandar Kanye voltar a fazer o que ele nunca deveria ter deixado em segundo plano, música.

Olívia Andrade Nicoletti
Olívia tem 26 anos, é repórter de moda, artista, desastrada, bebe muito gim e coca-cola e escreve sobre amor quando tem tempo.

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