A leitura nossa de cada dia

Vez por outra é comum serem divulgadas algumas pesquisas que indicam o quanto o brasileiro lê pouco, como os hábitos de leitura são primitivos e bem abaixo da média mundial. Aliadas aos números brutos, normalmente vêm opiniões (pouco embasadas ou maldosas) sobre o caso. Além disso, os poucos que se arriscam às aventuras contidas nas histórias de um livro qualquer que esteja na lista dos mais vendidos também é alvo de duras críticas que indicam a divisão entre uma literatura maior ou menor. Nos dois casos, só há um recado a ser dado, não como um grito de guerra, mas, como um suave pedido: leitores do mundo inteiro, uni-vos!

A leitura deve ser uma atividade prazerosa, carregada de descobertas e admiração da construção de uma realidade ou análise daquela em que está inserido. Os autores e obras clássicas permanecem ao longo dos anos, dialogam com inúmeros contextos e aguardam ansiosamente novos leitores. No entanto, esses mesmos clássicos exigem do leitor certo grau de interesse, de engajamento e livre-arbítrio de escolha, longe das imposições.

Em cada um, as manifestações artísticas impactam de alguma forma. Esse efeito é como o CPF, pessoal e intransferível. No caso da leitura, o grande motivo por não haver grande número de leitores é o hábito. Em primeiro plano, o hábito na maioria dos casos é instigado por exemplos dentro de casa ou até mesmo na escola. A herança da falta de leitura não é de hoje e, portanto, o primeiro tópico fica descartado. Em seguida, o caso da leitura no ambiente escolar também pode ser tratado como violência: como fazer jovens de 15 anos lerem e se apaixonarem por José de Alencar, Machado de Assis, Raul Pompeia, Jorge de Lima?

Já adultos, a carga horária de trabalho associada às tarefas domésticas e ao momento de descanso também não favorecem. Exigir a apreciação de uma obra literária por alguém cansado e preocupado com o contracheque baixo no fim do mês parece um tanto quando injusto. Se o problema é dinheiro, o preço dos livros também em nada ajudam.

Até aqui, talvez, seja possível compreender um pouco das pesquisas e como a mera divulgação dos números não ajudam a compreender um contexto ainda maior em que o país atravessa. Não justificativas, mas, alguns exemplos que explicam um pouco do nosso modelo de leitura.

Best-Sellers

Se por um lado temos um número reduzido de leitores, boa parcela dessa quantia se dedica aos chamados best-sellers. John Green, Jojo Moyes, Meg Cabot, Kiera Cass, entre outros. Para uns, uma literatura menor. Outros apontam que essas leituras podem levar esse público a mundos mais profundos futuramente. Nos dois exemplos, ao que parece, não existe a perspectiva de valorização da independência do leitor e até mesmo do fazer literário desses autores. Uma jogada comercial, uma estratégia de marketing, mas, que deu certo. Na maioria das vezes dialoga diretamente com seu público, possuem a capacidade de levar o leitor a conhecer-se e a se apaixonar por ler, por virar as páginas.

A leitura deve ser uma experiência prazerosa e, acima de tudo, sem imposição.

Na luta

Com já citado, a obrigatoriedade de leitura nos clássicos da nossa literatura na escola forma leitores que até compreendem o roteiro, os eventos que ocorrem, porém, sem a capacidade de ler as entrelinhas das obras. Não é uma questão de inteligência ou falha da própria escola. A questão é que as experiências de vida desse jovem leitor ainda são pequenas diante da imensidão do oceano de ideias e análises contidas em Dom Casmurro, por exemplo. Seria um ótimo começo rever essas estratégias.

Portanto, antes da crítica diante de uma pesquisa, é fundamental ampliar o horizonte de análise. Hoje, a interação via redes sociais faz com que notícias e mensagens sejam lidas a todo instante. Não é melhor e nem pior do que a leitura feita 50 anos atrás. É apenas diferente, sinal de mudança de época.

Nelio Barbosa

Nélio Barbosa está jornalista. Amanhã pode ser herói brasileiro, craque do Flamengo ou mais um esquecível cidadão. Gosta de livros, histórias em quadrinhos e rir. Tem alergia a endorfina, passa um tanto longe de álcool e já foi fã do Wesley Safadão. Mora em Uberlândia, mestrando em Comunicação e repórter do jornal Correio de Uberlândia. No TipZine, foi convidado para escrever crônicas e sobre literatura às segundas-feiras.

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Nélio Barbosa está jornalista. Amanhã pode ser herói brasileiro, craque do Flamengo ou mais um esquecível cidadão. Gosta de livros, histórias em quadrinhos e rir. Tem alergia a endorfina, passa um tanto longe de álcool e já foi fã do Wesley Safadão. Mora em Uberlândia, mestrando em Comunicação e repórter do jornal Correio de Uberlândia. No TipZine, foi convidado para escrever crônicas e sobre literatura às segundas-feiras.