Meninos e Meninas

Das discussões acerca do assunto polêmico ao respingo no mundo da moda: por que devemos tanto falar sobre gêneros?

David Bowie em cena do longa O Homem que Caiu na Terra. O cantor é um dos maiores símbolos do movimento híbrido de todos os tempos.

David Bowie em cena do longa O Homem que Caiu na Terra. O cantor é um dos maiores símbolos do movimento híbrido de todos os tempos.

A modelo Andreja Pejic nasceu Andrej Pejic, no ano de 1991, na cidade de Tuzla, na Bósnia. A mudança de nome – e de sexo – foi concluída apenas em 2014 mas, na cabeça dela nunca existiram dúvidas: Andreja nasceu mulher em um corpo de homem. Famosa pela aparência andrógina que ostentou durante 23 anos, chegou a ter medo de realizar o procedimento que a transformaria em uma moça pelo resto de sua vida, mas, preferiu seguir o coração em detrimento da carreira (que, aliás, mesmo depois da escolha, vai muito bem, obrigada!). Não muito longe dela – e bem mais perto de nós, brasileiros – está Leandra Cerezo, mais conhecida como Lea T, modelo e filha do ex-jogador de futebol Toninho Cerezo. A top, de 34 anos, se tornou conhecida por estampar campanhas de marcas como Givenchy e Benetton. Mas, o interesse do público sempre foi muito além da sua vida profissional, já que Lea, assim como Andreja, é uma mulher transexual. Mais próxima ainda, se falarmos em termos cronológicos, está Caitlyn Jenner, de 66 anos. A socialite era Bruce até o ano passado – ex-atleta, pai do clã Jenner e padrasto do clã Kardashian – e fez com que todos os holofotes do mundo dos ricos e famosos se voltassem para o assunto quando, corajosa, anunciou publicamente que faria a cirurgia de mudança de sexo.

O que essas mulheres têm em comum além de serem transexuais e transgêneras? Elas se tornaram vozes importantíssimas para trazer a causa à tona. Não por acaso, nunca se falou tanto em mudança de gênero no planeta inteiro. Aqui no Brasil, por exemplo, foi decretado, da forma mais sensata impossível, que a agressão contra pessoas trans também se encaixa na Lei Maria da Penha, em 2015, pelo deputado Jean Wyllys, do PSOL. Não demorou muito para o assunto chegar às passarelas de um jeito totalmente inovador e (o melhor!) usável – das belíssimas coincidências entre moda e inclusão social e a prova de que as roupas podem, sim, funcionar como um meio de expressão de identidade.

Lá fora, era Jean Paul Gaultier, sempre à frente de seu tempo, causando burburinhos em torno das coleções andróginas lançadas já nas décadas de 1980 e 1990, além de homenagear David Bowie, um dos maiores símbolos do movimento andrógino de todos os tempos; Ricardo Tisci contratando meninos para desfilar suas coleções femininas além de se aproveitar da amizade com Lea T, o que resultou em uma parceria de sucesso; Karl Lagerfeld apostando em gravatas e camisas de corte reto nas coleções da Chanel e; por último, mas talvez mais importante, Alessandro Michele, o não tão novo assim diretor criativo da Gucci, que, ao que parece, não vê uma grande diferença entre homens e mulheres: coloca saia nos moços, terno nas moças e enche nossos olhos de cores e estampas jamais antes pensadas.

Campanha de outono-inverno 2010 da Givenchy: à época, Ricardo Tisci já explorava o mesmo modelo de calças e camisas em homens e mulheres. Amiga do estilista, Lea T aparece em destaque usando um top de plumas.

Campanha de outono-inverno 2010 da Givenchy: à época, Ricardo Tisci já explorava o mesmo modelo de calças e camisas em homens e mulheres. Amiga do estilista, Lea T aparece em destaque usando um top de plumas.

No backstage do desfile de Resort 2016 da Gucci, muitas cores, estampas e shapes inusitados tanto para os meninos quanto para as meninas. De encher os olhos!

No backstage do desfile de Resort 2016 da Gucci, muitas cores, estampas e shapes inusitados tanto para os meninos quanto para as meninas. De encher os olhos!

Aqui no Brasil, veja só, o estilista Vitorino Campos, que tem apenas 28 anos, saiu à frente quebrando paradigmas e noções de separação de gênero. As camisas longas, bem cortadas e amplas foram emprestadas do closet masculino para adornarem os corpos esguios das modelos na temporada de primavera-verão 2016. Inspirado pelo encontro entre o estilo punk da cantora norte-americana Patti Smith e as imagens fortíssimas do fotógrafo Robert Mapplethorpe, ele apresentou roupas delicadas e que não expunham com obviedade as fronteiras. Em uma entrevista concedida a mim logo após a apresentação da coleção, em 2015, ele conta: “A minha última coleção traz esse romance entre Patti e Robert, que sempre foi algo híbrido, porém cheio de significado; além da fusão entre os pólos masculino e feminino. Um lugar em que os gêneros se tornam uma coisa única.” O rei, Reinaldo Lourenço, por sua vez, buscou referência na baronesa de Dudevant, para o seu verão 2016. A romancista francesa do século XIX foi uma das primeiras mulheres a usar camisas e calças. Na passarela, os trajes de gala masculinos foram reinterpretados nas produções femininas.

Preto, branco, rosa e azul pastel foram as nuances escolhidas para colorir a coleção de verão do baiano Vitorino Campos.

Preto, branco, rosa e azul pastel foram as nuances escolhidas para colorir a coleção de verão do baiano Vitorino Campos.

Reinaldo Lourenço São Paulo Fashion Week- Verão 2016 Abril/2015 foto: Gustavo Scatena/ Agência Fotosite

Reinaldo Lourenço
São Paulo Fashion Week- Verão 2016
Abril/2015
foto: Gustavo Scatena/ Agência Fotosite

Entretanto, nem tudo são flores – principalmente quando tratamos de assuntos tão delicados e que ainda precisam de muita reflexão e entendimento por parte do receptor. Não demorou para que a causa virasse polêmica. Há algumas semanas a C&A lançou uma campanha de dia dos namorados às avessas (literalmente). A chamada “dia dos misturados” brinda uma coleção não tão híbrida, mas que pode, sim, ser usada por homens e mulheres. Não porque é recheada de camisetas e calças de moletom (como havia sugerido a Zara erroneamente tempos atrás), mas porque reforça a máxima de que cada pessoa deve ser, bem como vestir, o que tiver vontade. A polêmica deu-se quando a cantora gospel Ana Paula Valadão tentou uma rede de boicote à marca após assistir ao comercial, alegando que é “contra a imposição da ideologia de gênero”. Com sorte, o bom senso levou a melhor e Ana Paula foi fortemente criticada pela maioria. A assessoria da marca respondeu defendendo que a C&A é “livre de todo e qualquer tipo de preconceito e estereótipo” e que o filme faz apenas um “convite à mistura de atitudes, cores e estampas como forma de expressão”, reforçando que o respeito a diversidade, inclusive de opiniões, sempre foram um dos princípios da empresa.

Mas, como todas as polêmicas, essa é mais uma que deve, sim, ser levada em consideração quando tratamos da diluição de gêneros. O movimento está aí, acontecendo e, a cada crítica, aparecem mais e mais esclarecimentos e mais motivos para aceitarmos as mudanças. Ao passo que as pessoas tornam-se mais afinadas com elas mesmas, elas também ficam mais sensíveis e confiantes. Uma cultura de moda diferente está sendo construída em torno de comunidades que promovem diversidade: vestuário em transição para uma geração que está se redefinindo – que bom, aliás. Esta nova moda é sobre ideais e filosofia, para o novo consumidor, que não quer simplesmente comprar para estar na moda, mas ser parte de um movimento, de uma causa nobre e maior.

Finalizo a reflexão (e abro o debate nos comentários) com uma música de Liniker, cantor e compositor que, aos 20 anos, dá nome à nova voz brasileira do soul e, meio sem querer, vai contra os padrões e regras do feminino e masculino contemporâneos apenas por ser quem é. Liniker se apresentou na última edição do SPFW e arrancou, além de aplausos, é claro, sorrisos e muitas lágrimas do público.

Olívia Andrade Nicoletti

Olívia tem 26 anos, é repórter de moda, artista, desastrada, bebe muito gim e coca-cola e escreve sobre amor quando tem tempo.

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