Nem lá, nem cá: não aguento mais ser verão

Ilustração: Garance Doré

Faço aniversário no dia 27 de fevereiro. O que sempre foi um problema quando considero o quesito “look festivo”, já que é uma data posta exatamente no período que eu costumo chamar de “entressafra da moda”. Nada além do que aquele momento esquisito de troca de coleção: as peças musas do verão já foram embora – mesmo os sales estão bem sem graça – e as mais bacanudas do inverno ainda estão por vir. Para pessoas que, como eu, trabalham com moda, é um momento ainda mais crítico – uma vez que já estamos sempre enjoados do que está chegando nas araras das terras tupiniquins. As novidades aparecem muito antes para nós – é por isso que usamos umas roupas engraçadas às vezes (preste atenção nelas, entretanto, garanto que no período de um ano você vai querer comprar algo parecido).

Há algum tempo, enquanto lia uma das colunas Confissões de uma Elle Girl, escrita pela Renata Piza, na revista Elle Brasil, me atentei a esse momento que sempre me incomodou, mas nunca havia dado muita atenção. Era o final da década de 2000 (estranho falar assim, não é?) e, com a crise mundial econômica que começou a nos assolar por volta de 2009, ostentar qualquer coisa caiu em desuso (foi quando a Louis Vuitton diminuiu a dose de monogramas, por exemplo). No texto, Re dizia que parecia que seu guarda-roupas recheado de peças extravagantes e expressivas não fazia mais sentido e que, a partir daquele momento, queria começar a usar peças minimalistas – como pediria a onda do normcore que viria dali um ano mais ou menos. É esse o sentimento: parece que nada do que eu tenho em casa faz sentido, nada consegue expressar bem o que eu quero dizer – e, afinal, o que é a moda senão um reflexo social e meio de comunicação pessoal? Um momento no qual eu só quero usar jeans e camiseta (bem chata mesmo).

Só que, mesmo fazendo uma birra (quem sou eu sem meu drama diário?), resolvi tirar proveito e usar esse tempo como um momento de reflexão também: penso no que está certo, no que ainda faz sentido e, mais importante, no que deixou de fazer – vale para o guarda-roupas e para a vida. Período de mudança de estação, troca de araras, peças, texturas, cores, materiais, moodboard. O que precisa sair daqui para dar lugar para outras coisas? Abro meu guarda-roupas e vejo muito branco, cinza, azul e rosa pálido (rosa-Olívia, como diz uma amiga), silhueta desconstruída e camisetas, muitas camisetas. Mas, talvez eu queira alguma coisa em verde militar com dourado. Acho que um pouco de verniz preto, quem sabe? Mangas que ultrapassam as pontas dos dedos (tudo ainda desconstruído, mas muito justo). Com certeza muita coisa emprestada do closet masculino – sempre tive um pézinho na androgenia. É, a moda tem dessas: não é preciso esperar o ano virar, a cada estação podemos deixar para trás o que não faz mais sentido e começar de novo. E, acredite, sempre temos o que deixar para trás.

Talvez seja o eclipse do dia 26 que promete rompimentos irreversíveis de antigos padrões. Talvez eu esteja adultecendo (e criando neologismos engraçados). Ou talvez só chegando mais perto dos 30 (alguém me ajuda?) e sentindo isso refletir bastante no meu estilo pessoal. Mas, é sempre uma delícia saber que dá para começar de novo. Que seja simples para vocês também.

 

Ps: me mandem parabéns! Eu adoro fazer aniversário.

Ps2: juízo nesse Carnaval, usem camisinha e bebam água, pelo amor de Deus.

 

Olívia Andrade Nicoletti

Olívia tem 26 anos, é repórter de moda, artista, desastrada, bebe muito gim e coca-cola e escreve sobre amor quando tem tempo.

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