O Bonde do Rolê mereceria ser censurado pelo MBL?

Mais uma vez, a política – ou tentativa de se meter dentro dela – afetou o mundo das artes e dividiu a opinião dos brasileiros. No último fim de semana, o Banco Santander foi vítima de protestos encabeçados pelos garotos do Movimento Brasil Livre (MBL), grupo que se formou com ideais liberais e apartidários, mas hoje já estão envolvidos com grandes caciques políticos até o pescoço. O grupo acusou o banco de fazer apologia ao estupro, pedofilia, zoofilia, etc. O banco se viu obrigado a cancelar a exposição “Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira“, que abordava questões de gênero, e nos fez questionar, em que ano estamos?

A questão aqui não é abordar o que é arte ou não, pois o mundo já está cheio de “especialistas de assunto que desconhecem” e a internet agradece quando alguém se retira desse tipo de debate. Mas há de se convir que o Brasil pós 2013 (início das passeatas estudantis e da polarização política) ficou muito louco; o Alexandre Frota virou um ícone conservador, o cantor sertanejo Zezé Di Camargo se tornou historiador e cientista político, a criançada foi pra internet dizer que a terra na verdade é plana, o nazismo se tornou de esquerda por youtubers e comentaristas de portal de notícia, um deputado quer resolver a crise econômica do Brasil com nióbio, meninos ricos que nunca trabalharam na vida formam um movimento “liberal” que censura manifestação artística, professores e chama de vagabundo qualquer pessoa que discorde deles… Enfim, que loucura, não?

Voltando aos protestos, uma questão tem chamado a atenção de forma irônica: o líder do MBL, Pedro Ferreira, também é vocalista do grupo curitibano de funk, Bonde do Rolê.

Conhecem o Bonde do Rolê? Não conhecem? Saca só, então:

O grupo de funk é conhecido por fazer músicas que abordam justamente o que eles contribuíram para ser censurada pelo Banco Santander. Irônico isso, não?

De maneira nenhuma, o Bonde do Rolê deveria ser censurado. O artigo 5º da Constituição diz que “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”.

Portanto, é preciso entender que a representação da arte não significa apologia a algo, porque, senão, qual é o critério de se criticar exposições como essa e assistir Game Of Thrones (estupro, tortura, morte), por exemplo? E isso é só pra ser o mais raso dos rasos, como já foi dito, não há intenção alguma de fingir o conhecimento sobre artes quando isso não existe.

Sobre o MBL, quando é que o Pedro Ferreira vai auto-censurar e proibir shows e discos do Bonde do Rolê?

 

Danilo Ruffus

Jornalista, fadigado e resmungão. Sofre da síndrome do underground, acredita no apocalipse zumbi e ainda brinca de ter banda de rock.

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