O fantasma da censura ronda o Brasil

A situação para quem trabalha com arte no Brasil nunca foi das mais fáceis. Quem se atreve a querer viver de música, atuando ou – em situações ainda mais difíceis – escrevendo ou pintando, enfrenta todo tipo de dificuldade; não há interesse da sociedade em consumir arte, não há incentivo governamental, há muita dificuldade financeira para viabilizar projetos artísticos, entre outros milhares de fatores que tornam os artistas brasileiros verdadeiros guerreiros.

Não bastando toda a dificuldade acerca da questão, um velho fantasma tem rondado a vida de quem quer trabalhar com isso: a censura. Sim, estamos em 2017, mas a sensação é de que estamos em 1964, pois, há algumas semanas atrás, presenciamos o caso do Banco Santander, que após sofrer uma espécie de censura por parte das crianças mal intencionadas do Movimento Brasil Livre (MBL), e o apoio popular dos seus sagrados seguidores nas redes sociais, se viu obrigada a cancelar o seu cronograma e encerrar a exposição Queermuseu. Mal tivemos tempo de respirar e digerir toda a ação pavorosa de censura, nos deparamos com a controversa apresentação do artista Wagner Schwartz, no Museu da Arte Moderna, em São Paulo. Na ocasião, o artista se viu envolvido em uma gravíssima acusação de apologia à pedofilia, pois foi filmado deitado, nu, enquanto uma criança de aproximadamente quatro anos (ao lado de sua mãe) tocava os seus pés.

A apresentação, mais uma vez, colocou a sociedade em guerra nas redes sociais, aquele lugar magnífico que Umberto Eco certa vez definiu:

As mídias sociais deram o direito à fala a legiões de imbecis que, anteriormente, falavam só no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade. Diziam imediatamente a eles para calar a boca, enquanto agora eles têm o mesmo direito à fala que um ganhador do Prêmio Nobel.

Mas, segundo a Lei de Murphy, “nada é tão ruim que não possa piorar”, não é mesmo?

Um projeto de lei, criado pelo pastor e deputado Marcos Feliciano (PSC), poderá fazer com que muitos artistas fiquem proibidos de se apresentar no Brasil. Sim, o projeto 8615/2017 propõe mudança no artigo 74 da Lei de número 8.069 que, além de discutir a atual classificação etária para crianças e adolescentes, visa proibir toda e qualquer profanação de símbolos religiosos no Brasil.

“Então quer dizer que com essa lei os pastores estão proibidos de quebrar imagens de santos adoradas por católicos?”

“Os traficantes das favelas cariocas vão responder pela destruição dos centros religiosos de matrizes africanas?”

“Será que associar o Islã ao terrorismo vai dar cadeia?”

Seria inocente demais acreditar que essa lei servirá pra alguma religião que não seja a cristã. Afunilando ainda mais a história, essa lei só servirá ao neo-pentecostais, representados por bandidos denominados de “Bancada Evangélica” no Congresso.

Isso significa que artistas como Black Sabbath, Iron Maiden, Slayer, Behemoth, Bad ReligionGhost, Marilyn Manson e até mesmo a própria Lady Gaga seriam proibidos de se apresentar por aqui. E o idiota útil falando de Venezuela, Cuba ou Coreia do Norte nas redes sociais, lembra?

E não para por aí; jogos de vídeo-game, cinema, televisão, e muitas outras coisas teriam que passar pelo crivo dessa lei absurda.

O projeto ainda tramita na Câmara dos Deputados e passará por toda a burocracia de ser aprovado, enviado ao Senado e, se também aprovado, chegar à Presidência, onde poderá ser sancionado ou recusado, o que nesse caso faria voltar à casa dos ladrões, digo, deputados.

Pode ser que não seja mais do que uma cortina de fumaça para esconder coisas piores que estão sendo discutidas no momento, no entanto, a simples ideia de se criar um projeto como este, é um sinal de que devemos nos atentar ao falso moralismo ético/religioso que se instalou no congresso e tenta dia após dia impor seus valores acima dos demais.

Enquanto ainda podemos, toda profanação será bem apreciada.

 

Danilo Ruffus

Jornalista, fadigado e resmungão. Sofre da síndrome do underground, acredita no apocalipse zumbi e ainda brinca de ter banda de rock.

Comments

comments

About the Author

Danilo Ruffus
Danilo Ruffus

Jornalista, fadigado e resmungão. Sofre da síndrome do underground, acredita no apocalipse zumbi e ainda brinca de ter banda de rock.