O indigesto Martin Shkreli e a sua jogada no mundo da música

Para quem não conhece, Martin Shkreli nada mais é do que uma pessoa que sabe muito bem usar das artimanhas que o capital oferece e faz girar pra si uma quantidade enorme de dinheiro, e também de gente para detestá-lo. Isso faz dele um cara foda? Muito pelo contrário, suas atitudes têm gerado muita discussão sobre os limites da ética no capitalismo e muita gente tem achado o cara um canalha de marca maior.

Tudo começou quando Martin Shkreli, ex-CEO da empresa Turing Pharmaceuticals e dono de uma famosa equipe de League Of Legends, comprou por 55 milhões de dólares os direitos de exploração e venda do Duraprim, remédio utilizado no tratamento da AIDS.

Aconteceu que, após o investimento, o “gênio do livre-mercado”, que – ao contrário dos vira-latas brasileiros que passam o dia nas redes sociais defendendo o capitalismo sem um tostão no bolso – mostrou como o capitalismo deu certo, para ele, é claro, aumentando o custo de revenda do produto, que antes era de U$13,50 (hoje R$42,66) para U$750 (algo em torno de R$2.370 dependendo do dia). Lembrando: o remédio é usado no tratamento da AIDS e o valor aplicado pelo “gênio” em questão é o de uma ÚNICA PÍLULA.

Mas o que esse cidadão tem a ver com a música?

Shkreli, buscando novos horizontes para ser odiado, estreou – e com o pé esquerdo – no ramo musical. Isso porque o lendário grupo de rap, Wu Tang Clan, anunciou ainda em 2015 o lançamento de um disco novo com todos os integrantes originais, fato que deixou os fãs em estado de loucura. No entanto, o grupo fez questão de deixar claro que o disco seria comercializado em UMA ÚNICA UNIDADE e que custaria U$2 milhões, dinheiro que seria revertido  para caridade. Muitos fãs tentaram, em vão, levantar a grana através de plataformas de crowdfunding, sendo a mais famosa pela Kickstarter, porém, todas as tentativas falharam e o disco acabou sendo vendido para um cliente, até há pouco tempo, anônimo.

Meses atrás foi divulgado que o mesmo cara que havia aumentado da noite para o dia o preço dos medicamentos para o tratamento da AIDS era o ser humano que possuía o tal disco do Wu Tang Clan.

Mas qual é o problema do cara ser dono do disco? Se ele comprou, ele pode fazer o que quiser com ele, certo?

Em partes. Ao ser descoberto como o dono do disco que, se fosse comprado via crowdfunding seria vendido – e consequentemente distribuído – na internet, o jovem milionário ameaçou destruí-lo, o que causou bastante revolta nos fãs em geral.

E foi além. Shkreli anunciou possuir também materiais inéditos dos Beatles e Nirvana e, assim, quem sabe, não dar a eles o mesmo destino? Pode isso, Arnaldo?

Após muita pressão, ‘bundaços, vomitaços e beijaços’ e muitos outros ataques de raiva na internet, o jovem fanfarrão decidiu liberar duas músicas na internet. Que coração bom, hein?

E como todo protesto virtual e pacífico, com cirandas e dancinhas nunca surtem efeito, uma pessoa decidiu mostrar seu ódio de outra forma. Ao chegar no campus da UC Davis (universidade californiana) para uma palestra de Milo Yiannopoulos, editor do Breitbart, Shkreli teve que lidar com vários manifestantes contra a sua presença no local, e após ser chamado de “pedaço de bosta” por um manifestante, o jovem milionário teve o rosto atingido pelo que parece ser cocô de cachorro.

Saca só:

 

O conceito, pra lá de curioso, do disco 

O disco causador da treta, Once Upon A Time In Shaolin, foi gravado com um conceito pra lá de curioso. Além de ter sido produzido totalmente em segredo, a ideia dos integrantes era que após a venda dos direitos, o disco pudesse ser comercializado e distribuído apenas após 88 anos, ou seja, apenas lá pra meados do ano de 2103… Hã?!

Isso mesmo, segundo o líder do grupo, Robert Diggs, também conhecido como RZA, viciado por numerologia, a ideia foi somar o número de integrantes (oito) com o número do ano da produção do disco, 2015 (2+0+1+5=8) e fazer com que o disco ficasse por 88 anos longe do grande público.

Junto com o disco, que contém 31 faixas, o comprador ainda teve acesso a um livro de 174 páginas explicando as letras e o conceito do disco, e ainda contou com ilustres participações nas músicas como a da cantora Cher, da atriz Carice van Houten, a Melisandre de Game of Thrones, e do time do Barcelona (pois é!).

Na internet há milhares de “supostos” áudios vazados do álbum, mas o que há de concreto são apenas alguns vídeos de Martin Shkreli disponibilizando trechos de duas músicas como cumprimento de uma promessa que teria feito caso houvesse a vitória de Donald Trump nas eleições norte-americanas. Que grande filho da p#t@!

Danilo Ruffus

Jornalista, fadigado e resmungão. Sofre da síndrome do underground, acredita no apocalipse zumbi e ainda brinca de ter banda de rock.

Comments

comments

, , , , ,
Danilo Ruffus

About Danilo Ruffus

Jornalista, fadigado e resmungão. Sofre da síndrome do underground, acredita no apocalipse zumbi e ainda brinca de ter banda de rock.
View all posts by Danilo Ruffus →