O louco é o outro

Um homem atira contra 22 mil participantes de um festival de música em Las Vegas. Mata 58 pessoas e, em seguida, se mata. O pior atentado da história dos Estados Unidos. Um louco, é o primeiro pensamento que vem à cabeça.

Mas se a gente for parar para analisar, Stephen Paddock não era louco, aparentemente. Ele tinha uma vida normal, não tinha antecedentes criminais – apenas uma multa de trânsito -, não era jovem, nem veterano de guerra, não era filiado a nenhum grupo discriminatório nem a nenhuma seita religiosa radical. Branco, casado, heterossexual. Levava uma vida normal, até atirar contra 22 mil pessoas.

Um disparo o tira da normalidade e o coloca na caixinha dos loucos.

Mas essa notícia não é muito desconhecida, não é? A sensação que dá é que pelo menos uma vez por ano há um ocorrido nos EUA. E independente do motivo que leva alguém a cometer este tipo de crime, é importante lembrar que o país vende arma como se fosse papel higiênico no mercado. E vende um estilo de vida inalcançável, que traz consigo frustrações.

Segurança de uma creche ateia fogo em crianças e em si mesmo? Louco.

Mulher se suicida após fazer 159 horas extras no trabalho? Fraca.

Homem ejacula em mulher no ônibus? Doente.

Mas o fato de todas estas notícias estarem aparecendo cada vez com mais frequência na mídia, me faz repensar no conceito de loucura. Que todas estas pessoas viviam um sofrimento mental intenso, disso eu não tenho dúvida, mas será que a loucura acomete a tantas pessoas assim no mundo? Ou estamos produzindo loucura como os Estados Unidos produzem arma?

Somos constantemente cobrados e pressionados. Rotina, casa, comida, filhos, dinheiro – ou a falta dele -, desemprego. A homofobia, o machismo, o racismo, a intolerância com o diferente, os discursos de ódio elegendo grandes governantes no mundo todo.

A sociedade está cada vez mais doente e o sintoma disto se manifesta mais em umas pessoas do que em outras. Mas, colocando-as no lugar de loucas, a gente ignora todos os demais problemas. É como se o nosso corpo, como um todo, adoecesse pelo cansaço produzido e a gente achasse que arrancar um órgão só resolveria os problemas. E não resolve.

É claro que precisamos tratar todo e qualquer sofrimento mental intenso, tudo que eu não quero é romantizar a loucura. É claro que precisamos pensar na família das pessoas que morreram, que, afinal de contas, eram inocentes. Mas colocar o rótulo de louco em pessoas que cometem estes atentados acaba ajudando a não abrir espaço para uma análise/discussão mais profunda: ele era louco, não tem nada a ver com a venda desenfreada de armas no país. Ela era louca, não tem nada a ver com a pressão que há no mundo de trabalho. Ele era louco, não tem nada a ver com a sociedade machista que vivemos que estimula olharmos o corpo da mulher como objeto de satisfação do prazer masculino. Eles são loucos. Eu não sou.

E com isto, nos afastamos dos ditos loucos para podermos dormir bem a noite com a consciência tranquila de que jamais faríamos isto. E não refletirmos que o que nos separa dos loucos é um surto. E só.

Julia Calixto Colturato

Psicóloga, mas queria mesmo era ser famosa. A louca dos signos (sagitariana), ama reality show e Anitta e não se aguenta quando o tema da conversa é feminismo.

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Psicóloga, mas queria mesmo era ser famosa. A louca dos signos (sagitariana), ama reality show e Anitta e não se aguenta quando o tema da conversa é feminismo.