Obrigado e adeus, Chester!

Falar sobre a morte é foda.

Muitas vezes a gente vive a vida de forma sobrecarregada, estressante, acumulando sonhos, frustrações e objetivos materiais que não para pra pensar na própria finitude. E parar pra pensar nisso… é complicado.

Ontem o mundo perdeu um dos maiores vocalistas de rock dos últimos tempos, Chester Bennington, vocalista do Linkin Park. Dois meses atrás, já havia ido embora outra grande voz, Chris Cornell.

Quis o destino que Chester partisse exatamente na data em que seria aniversário de Chris, seu grande amigo. Quis Chester que fosse da mesma forma, suicídio.

Muita gente diz que depressão é doença de rico, que pobre não tem tempo para pensar em ficar triste. Será que é correto afirmar isso mesmo? Não seria uma espécie de suicídio afogar nossas mágoas e frustrações em um copo de bebida? Como se essa atitude fosse nos livrar de ser quem somos, apagar da memória a sucessão de dias ruins que somos obrigados a nos submeter? E a segunda-feira sempre tão dolorosa pra muita gente, não seria um sinal de que estamos guiando a nossa vida de forma errada?

A forma como cada um lida com as dores e tristezas é muito particular, é doentio tomar posicionamento com tanta certeza sobre assuntos que não temos tanto conhecimento. Sobre aceitar a dor alheia, nos falta muita empatia, amor ao próximo.

Há estudos que mostram que a depressão é uma das DOENÇAS mais perigosas do século. E ainda, segundo levantamento feito pela Universidade de Harvard, o Brasil é o país que figura com mais casos de depressão entre os países em desenvolvimento. Segundo o estudo, os índices da doença aumentaram 705% nos últimos 16 anos.

A doença pode ter vários gatilhos para se desencadear, mas a maior parte deles é o stress. Há ainda outros fatores, como o vício (tabaco, álcool, drogas) e também a predisposição genética.

Em O Demônio do Meio-Dia (Companhia das Letras), o escritor Andrew Solomon resume uma dúvida que temos sobre o assunto da seguinte forma:  “O contrário da depressão não é a alegria, mas, sim, a vitalidade”.

É difícil compreender o que se passou pela cabeça de Chester Bennington para tal atitude extrema, mas nem tudo é tão simples como gostaríamos – ou fazemos de conta – de entender.  O suicídio se justifica apenas na pele de quem o comete.

É ainda mais doloroso perceber a falta de amor ao próximo diante de uma tragédia desse porte, pois a morte do cantor mal havia sido confirmada e nas redes sociais choviam comentários odiosos e egoístas, que ironicamente acusavam o cantor e demais suicidas de egoístas, fracos…

Nossa necessidade de omitir opinião sobre todo e qualquer assunto, em todos os momentos, tem nos transformado em verdadeiros idiotas. Qual a utilidade de se fazer piada com a morte de alguém?

É realmente muito doentio esse mundo em que vivemos, precisamos de mais empatia para lidar com casos assim, e, principalmente, manter mentes e corações abertos para fazer algo por quem sofre desse tipo de doença, pois pessoas assim necessitam de ajuda.

Há dois meses, quando Chris morreu, Chester escreveu uma carta aberta a ele:

“Sonhei com os Beatles ontem à noite. Acordei com ‘Rocky Raccoon’ tocando em minha cabeça e um olhar preocupante no semblante da minha esposa. Ela me disse que meu amigo havia acabado de falecer. Lembranças sobre você inundaram a minha cabeça e eu chorei. Ainda estou chorando, de tristeza e de gratidão por ter compartilhado alguns momentos especiais com você e sua linda família. Você me inspirou tantas vezes de várias maneiras que você não consegue imaginar.

Seu talento era puro e incomparável. Sua voz foi alegria e dor, fúria e perdão, amor e coração partido tudo em uma só. Eu acho que todos nós somos assim. Você me ajudou a entender isso. Acabei de assistir a um vídeo de você cantando ‘A Day in the Life’ dos Beatles e lembrei do meu sonho. Quero pensar que era você se despedindo da sua maneira. Não posso pensar em um mundo sem você nele. Rezo para que você encontre paz na próxima vida. Envio meu amor para sua esposa e filhos, amigos e família. Obrigado por me permitir ser parte da sua vida.

Com todo o meu amor,
Seu amigo,
Chester Bennington”

Agora, com muito pesar, somos nós quem agradecemos.

Obrigado pela grande contribuição à música e que você encontre luz no seu caminho.

Danilo Ruffus
Jornalista, fadigado e resmungão. Sofre da síndrome do underground, acredita no apocalipse zumbi e ainda brinca de ter banda de rock.

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