Olhar o passado para seguir adiante! Ou: sempre fomos assim!

Da mesinha do bar à timeline do Facebook, a discussão política já deixou os resultados do futebol e da loteria de lado. Recheada de escândalos, o noticiário dos nossos representantes é acompanhado com mais interesse do que os capítulos das novelas. Assim como água no deserto e canja de galinha, vale lembrar que nosso passado político deixaria alguns desses espectadores em estado de choque.

Durante o século XIX, ocorreram alguns acontecimentos significativos para a história política, social e econômica do Brasil. A chegada da corte em 1808, a Independência em 1822 e a Proclamação da República em 1889 são momentos que precisam ser de fato compreendidos para entendermos um pouco do que o país é hoje. O jornalista e historiador Laurentino Gomes enfrentou o desafio de narrar os três acontecimentos em trabalhos analíticos e historiográficos profundos em uma linguagem bastante acessível.

Após revisitar as obras de Laurentino, à luz dos embates de hoje, resolvi fazer uma pequena resenha que entrelaça esses três episódios da nossa história com os atuais acontecimentos. Não tem conclusão. Ela será sua.

A chegada da Corte Portuguesa proporcionou à colônia explorada uma situação que nos 300 anos anteriores ainda não havia ocorrido. Agora, era nos trópicos que a Casa de Bragança concentrava o seu poder após a fuga do poderio bélico napoleônico. Chamado de indeciso, frouxo e até mesmo covarde, D. João VI foi imprescindível para a integração nacional, na inserção do Brasil no cenário econômico, por meio da abertura dos portos, e criação de um modelo do que hoje é o Banco do Brasil. Para governar e arcar com os altos custos de manutenção da Corte, concedia títulos a qualquer um, aumentou os impostos e permitiu que a exploração sem limites nas terras tupiniquins acontecesse. A realeza também ficou marcada pela corrupção nas articulações e concessões feitas para que o poder monárquico absoluto permanecesse.

O que temos agora talvez seja o resultado da somatória de todas as medidas sujas, o jeitinho brasileiro, a moral frouxa ou hipócrita sustentada ao longo dos anos. O espanto, a revolta, a indignação e até mesmo os protestos, são perfeitamente legítimos. No entanto, a falta de conhecimento sobre a própria história inviabiliza a maioria dos debates. Assim, 1808 é um marco na nossa trajetória enquanto nação. E é a raiz de muitos avanços e conquistas assim como de nossas mazelas e maus costumes.

A chegada da corte portuguesa fez com que o Brasil inaugurasse um processo sem volta: a independência. Por 13 anos, D. João VI governou em terras tupiniquins. Em 1821, uma revolução em Portugal faz com que o caricato rei tenha que retornar às terras lusitanas e deixando o seu filho D. Pedro I. Vale ressaltar que o mundo passava a conviver com novas ideias políticas após a Revolução Francesa e Independência dos Estados Unidos. Os ideais haviam chegado ao território brasileiro e certamente vieram para ficar.

Gerenciando uma série de conflitos internos e observando as articulações retrógradas que se passam na sede do governo em Lisboa não houve outra saída a não ser o “grito do Ipiranga”. No entanto, o processo de tornar o Brasil independente não foi tão simples quanto faz parecer. O novo país precisava controlar a própria economia, os ideais republicanos que ameaçavam o poder do imperador e por fim, como manter a unidade da nação em meio aos ideais separatistas que soavam aos quatro cantos. A brava gente ainda não era plenamente brasileira. Faltava a identidade, o pertencimento de um povo à sua terra.

Entre embates sobre qual deveria ser o melhor caminho, ou a república ou o absolutismo, o sangue de inúmeros combatentes irrigaram o nosso solo. Mas a articulação de José Bonifácio e a imperatriz Leopoldina, e a sede por dinheiro e fama do escocês Thomas Cochrane fizeram com que o gesto do Ipiranga fosse além. Esse último foi comandante de importantes vitórias conquistadas nos mares.

Esses eventos modelaram o país tal qual nós o conhecemos hoje. A presença da corte reconfigurou estruturalmente o modo como o jovem país pertencente a Portugal seguia. A Independência seria fundamental para orientar os caminhos que iria percorrer dali em diante sozinho. Porém, de todos esses períodos a Proclamação da República, foi, e continua sendo, um processo muito traumático e mal resolvido. Isso porque até hoje não temos um longo período de instabilidade sobre esse regime. Ocorre que os fatos que nos levaram à república foram decididos não por livre e espontânea decisão de ideias compartilhadas pelos brasileiros. Foram decisões tomadas no seio de um grupo organizado, tanto nos idos do império, quanto no novo modelo de governo. Mas, o agravante em todos os casos foram os sucessivos golpes que o país sofreu. Em 1841: golpe da maioridade e Dom Pedro II inicia o conturbado segundo reinado.

Após isso, três setores entraram em conflito com o imperador: a igreja, o exército e os fazendeiros. A conspiração de Deodoro, a fraqueza na reação de D. Pedro e a total apatia popular trouxe a república. Como é possível notar, a “coisa pública”, ou república, mais parece uma “coisa privada”. Nunca quem está no poder está de fato no poder. Há um emaranhado de situações paralelas que dá a ideia, ou sensação, de que estamos sempre sendo observados por um poder obscuro, invisível, mas contundente nas suas vontades quando resolve destituir o imperador, o chefe do executivo e assim por diante. Ou seja, a última coisa que parece emanar do povo é o poder, sempre centrado nas mãos de poucos. “Há algo de podre na República Federativa do Brasil”, diria uma paráfrase do príncipe Hamlet, de Shakespeare.

Nelio Barbosa

Nélio Barbosa está jornalista. Amanhã pode ser herói brasileiro, craque do Flamengo ou mais um esquecível cidadão. Gosta de livros, histórias em quadrinhos e rir. Tem alergia a endorfina, passa um tanto longe de álcool e já foi fã do Wesley Safadão. Mora em Uberlândia, mestrando em Comunicação e repórter do jornal Correio de Uberlândia. No TipZine, foi convidado para escrever crônicas e sobre literatura às segundas-feiras.

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Nélio Barbosa está jornalista. Amanhã pode ser herói brasileiro, craque do Flamengo ou mais um esquecível cidadão. Gosta de livros, histórias em quadrinhos e rir. Tem alergia a endorfina, passa um tanto longe de álcool e já foi fã do Wesley Safadão. Mora em Uberlândia, mestrando em Comunicação e repórter do jornal Correio de Uberlândia. No TipZine, foi convidado para escrever crônicas e sobre literatura às segundas-feiras.