A origem de tudo

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Peço desculpas pelo texto de hoje. Não tem nenhuma receita ou alguma dica de cozinha. Hoje vim falar de coisas que abrangem não só o estômago, mas o coração.

Já sabendo que poderia não ser reconhecida, ela quis brincar:

– Oi, vô, lembra de mim?
– Você não é a (pausa longa)… aquela.
Ele não lembrou.

Ele não se lembra mais da neta. Ele também já deve ter esquecido tudo que ensinou a ela. As coisas agora são confusas na sua cabeça, porém, o que ele carrega consigo, são lembranças leves e despreocupadas. E toda frase sem sentido agora vira um mar de risos. Porque já não importa para ele quem são as pessoas e o que ele ensinou a elas. A única coisa que importa agora, são as lições que nunca devem ser esquecidas. E ela, a neta, ela aprendeu coisas tão sublimes com este avô, que decidiu que era hora de compartilhá-las com o resto do mundo.

Parte 1: Respeite a tua terra

“A terra lhe dá tudo. Quem planta, colhe.”, ele dizia. A terra lhe dá a vida e é da terra que você tira seu alimento. Assim, ela aprendeu a respeitar a terra e tudo que vinha dela. Cada alimento que chegava à mesa havia sido plantado por alguém e depois de dias sendo cuidado, ele foi colhido, transportado e preparado pela mãe.
Tudo que está à nossa mesa passou pela mão de alguém. Alguém com sonhos, alguém como nós. Alguém que acorda todos o dias com o desígnio de colher o que a terra dá. De, numa gentileza constituída, dar ao outro o que de comer. Respeite a terra e aprenderá a respeitar o teu alimento. Não tire do pé a fruta que não vais comer. Não jogue fora o que a terra demorou tanto para te dar.

 

Parte 2: Você não é superior porque mata outro ser vivo para comer

Não tem problema algum em comer carne, não somos os únicos no reino animal a comer outro animal, mas entenda que o animal é um ser vivo. E como ser vivo, ele ensinou a neta a respeitar o animal. Respeite a vaca na hora de tirar o leite, deixe o bastante para o bezerro se satisfazer, aquele leite é dele, não seu. Não maltrate a galinha para apanhar seus ovos. Apenas apanhe-os. Não estresse o carneiro correndo atrás dele no curral, eles são sensíveis. E da criação abatida, aproveite tudo. Não jogue fora miúdos, ossos ou couro. Tudo há de ser aproveitado. O sacrifício de um animal que serve de alimento para outro deve valer a pena. Com tanta gente passando fome no mundo, por que jogar alimento fora?

Também nunca se esqueça: o animal teve uma vida feliz, procriou disseminando os seus no mundo, e, agora, ele irá cumprir um propósito: alimentar uma família. A vida é feita de propósitos.

 

As lições passadas pelo avô são valiosas pra ela e deveria ser pra todos. Em tempos de grandes latifundiários, consumo exacerbado de alimentos e desperdício global, enquanto milhares morrem de fome, essas lições de respeito valem mais que ouro. Um dia, a terra poderá não mais ter condições de nos dar o que comer.

Ela vai carregar esse aprendizado para sempre. E mesmo que o avô o tenha esquecido. Cada ovo, cada bife e cada fruta terão sempre um amor a mais: o da saudade. Saudade do avô que ensinou a respeitar a origem dos alimentos e da vida.

Mariana Nogueira
Chef por formação, Social Media por destino e colecionadora de aprendizados. Acredita que a vida só faz sentido se tiver o nosso tempero.

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