Os dissabores das mães que se sentem grandes estrategistas

Na tentativa de educar bem, as mães experimentam de tudo um pouco em busca de estratégias eficientes, mesmo que, aos olhos de seus filhos, elas pareçam surtadas e/ou exageradas. Dizem que de boas intenções o inferno está cheio, mas espero que haja uma tolerância um pouquinho maior para as mães.

Recentemente, vi nas redes sociais, o compartilhamento de avisos deixados por uma mãe aos seus filhos. Três deles diziam: “Vou enxugar com a sua blusa predileta o xixi na tampa do vaso.”, “O resto de comida que eu encontrar na pia será o tempero da próxima refeição.” e “Descarga não dá choque. Pode usar a vontade.”.

Acredito que a maioria das mães compreende e não considera extremada a atitude dessa mãe. Eu mesma já cheguei a usar ameaça (verbal) semelhante quanto ao xixi na tampa do vaso com o meu caçula: “Lucca, na próxima vez que você não levantar a tampa, vou usar sua toalha de banho para limpar os respingos de seu xixi.” Faz algum tempo que não encontro o vaso do lavabo respingado, mas continuo encontrando a toalha de mão toda revirada e fora do lugar.

Ao ler os bilhetes dessa mãe desesperada e criativa, lembrei  de reações radicais, mas também engraçadas, de grandes amigas em momentos de estresse. Uma delas foi chamada várias vezes no colégio porque a filha (quando pequena) mordia os coleguinhas. Um dia, após ela ser a vítima, deu outra mordida de volta, exclamando “Viu como dói?”. Ela conta isso com remorsos, mas diz que a estratégia radical, durante um bom tempo, funcionou. Outra amiga, quando o filho passou no vestibular e foi morar fora com outros estudantes (de Comunicação – área com imagem estereotipada rsrs), pediu para o filho ficar bem longe dos baseados e fez a seguinte ameaça: “Sei muito bem o que rola em república! Se você aparecer fumando maconha, vou passar a fumar também. Quero ver se você vai gostar de ter uma mãe maconheira?!”.

A gente tenta de tudo e, quando dá certo, até ignora a condenação por psicólogos ou psicopedagogos da estratégia adotada. Eu vivo apelando para todo tipo de ameaça. Já tive êxito com algumas insanas e fracassei com as ponderadas:

– Fred, se você não levar a Lua para passear hoje, você vai ficar trancado em casa como ela. Também não vai sair de casa.

– Lucca, se você não guardar seus brinquedos espalhados, vou juntar tudo e doar para outras crianças.

– Fred, se você exagerar com esse Pokemón Go, também vou começar a jogar e deixar todos os meus compromissos de lado… E a maioria deles envolve vocês.

– Lucca, se você não desligar esse tablet e vir almoçar agora, vou quebrar em mil pedacinhos essa porcaria e jogar no lixo.

O Lucca é quem mais me dá trabalho. Não sei se esqueci o tanto que talvez o Frederico, um dia (na idade do Lucca), também já tenha me estressado, ou se realmente meu caçula veio para me “testar” ou para me fazer  “pagar meus pecados” – como diriam minhas avós.

É bem comum ele dar trabalho para comer, tomar banho e estudar. Nesta semana de provas, várias vezes eu quis pegá-lo pelos cabelos e/ou arrancar os meus.  Ninguém merece!

Tento me consolar, lembrando que meu irmão mais velho também foi uma criança muito difícil nessas três categorias. Não me esqueço do dia em que ele, dormindo numa poltrona da casa da minha avó, assustou todas as outras crianças ao manifestar em voz alta o que acontecia em seu pesadelo: “Não quero tomar banho! Não quero tomar banho!”. Bom, minha mãe sobreviveu e hoje vê seu filho adulto exagerando na quantidade de banhos por dia, além de testemunhar o pai super dedicado que ele se tornou.

Fazer o Lucca comer bem e tomar banho cedo vira fichinha quando chega a hora de convencê-lo a estudar. Para a minha angústia, mal começaram as aulas e ele já entrou em período de provas. Não é moleza a luta (com vários rounds) que se inicia aqui em casa quase todas as tardes com prova no dia seguinte. Dá vontade de sair correndo diante de tanto chororô e resistência antes que toda a matéria seja vista: “Vou ter que ler tudo isso?”, “Por que existe prova?”, “Quantas páginas são?”, “Quantas páginas faltam?”, “Ah não! Isso também eu preciso ler?”, “Posso descansar um pouquinho e terminar depois?”, “Estudar não serve pra nada!”, “Odeio a Muralha da China!”. Infelizmente, quase sempre, acabo perdendo a paciência: grito, dou vários chacoalhões nele, ameaço tirar as coisas que ele mais gosta, desisto e o deixo de castigo para tentar reiniciar mais tarde. Para não ser injusta, preciso registrar que ele não deu trabalho para revisar a matéria de Ciências. Sabia tudo sobre os solos arenoso, argiloso e humífero (desse eu nunca ouvi falar). Gostou muito de acompanhar o plantio, a germinação e o transplantio da alface. Na véspera da prova de Matemática, antes de abrir a apostila, ele tentou me tranquilizar: “Sou muito bom em matemática, mãe!… Só o Felipe, o Benjamin e o Matheus são melhores que eu.”.

Até agora, aos trancos e barrancos, a gente tem conseguido chegar ao fim e ver toda a matéria. Mesmo assim, já chego na saída do colégio perguntando como ele se saiu. Tem dia que a prova foi “muito fácil” e outros que foi “mais ou menos” – que medo que essa resposta me dá.

No entanto, essa criaturinha, que vive me tirando do sério em época de prova, é também o ser humano mais amoroso da casa. Nos intervalos das brincadeiras com os amigos, entra para beber água ou fazer xixi, mas antes de voltar para a rua, quando me vê trabalhando no computador (preparando aula ou montando post para a Cor Nacional), quase sempre, aproxima-se para me dar um grande abraço e dizer “te amo”… Entro em estado de graça e até esqueço que, provavelmente, após lavar as mãos, ele deixou a toalha do lavabo toda bagunçada.

Alessandra Possato

40tona. Paulista, filha de mineiros. Mãe do Fred e do Lucca (curte ser mãe de meninos). Apaixonada por Cinema e Dança. Estudiosa de Design, Moda e Cibercultura. Publicitária e professora universitária. “O que se leva da vida é a vida que se leva”.

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