Por que Sense8 foi cancelada?

Antes de alguém que esteja lendo isso me odiar, eu gostaria de deixar claro que não sou hater da série. Assisti as duas temporadas no lançamento e, sim, eu também gostava muito. Não é ironia amigos, eu particularmente possuía um carinho grande pelo show, tanto que não escrevi review sobre a segunda temporada mesmo tendo maratonado-a justamente para esses fins. Agora, é fato que a internet ainda está de luto e bastante desolada com o cancelamento, mas algumas coisas precisam ser pontuadas para que o número de absurdos que estão sendo ditos (escritos) por aí diminua e substitua a desinformação pela informação.

Primeiro, apesar de sermos um país populoso, o Brasil não corresponde ao mundo todo. É notória que a audiência da série foi consideravelmente grande, mas infelizmente isso não se espelhava totalmente lá fora. Os resultados gerais já não foram satisfatórios na primeira temporada, mas na segunda eles ainda caíram consideravelmente. Sem falar em outro detalhe meio óbvio: nem sempre o fandon consegue segurar um show.

Outro ponto importante é termos a consciência de que gostar de uma série não a torna essencialmente boa, tal como não gostar não a torna efetivamente ruim. As pessoas amavam Sense8, mas a falha na execução da trama sempre impediu que ela se tornasse uma série verdadeiramente boa. Na temporada de estreia, o tempo hábil gasto com ambientação foi exorbitante e acabou atrasando drasticamente o desenvolvimento da história. Já a segunda, coitada, sofreu em todos os aspectos pelo atraso geral, resultante dos erros da primeira somados aos problemas internos do show, que envolveram até troca de protagonista e forçaram o adiamento da segunda por 11 meses.

Desde a estreia, Sense8 sempre apresentou um projeto ambicioso que nunca conseguiu atingir seu potencial. A lentidão no desenvolvimento da primeira season fez com que a segunda acabasse afogada em informações, que em grande plano sequer fazem sentido. Muitas explicações foram dadas, mas se contradiziam, o que acabou passando despercebido graças ao apelo visual/sexual excessivo que o show apresenta. A proposta inovadora acabou assolada pela falta de estruturação da série, afinal, uma boa história é importante, mas a forma de contá-la é essencial.

É totalmente compreensível que o show tenha tantos fãs e que eles sejam tão devotos, uma vez que Sense8 apresentava uma perfeita utopia da sociedade atual, que carrega o desapego como princípio. Na série, tudo ficaria bem se eles estivessem juntos. A mensagem de liberdade e amor era tudo o que o público queria/precisava ouvir no momento. Oito pessoas que, ainda que fossem grotescamente diferentes, estavam juntas para enfrentar qualquer coisa que surgisse, com cada um sendo valorizado pelo seu talento, como o ser único que somos. Isso tudo sem citar as cenas de ação que sempre foram muito boas.

A resposta oficial da equipe também precisa ser levada em consideração: Sense8 custava muito caro. Devido à diversidade de cenários, a série gerava um custo médio de nove milhões de dólares por episódio. Para se comparar de forma concreta, Game of Thrones – com todos os seus efeitos especiais/maquiagem/figurino – tem o custo médio de US$ 10 milhões por episódio. Inacreditável, né?

Eu entendo que seja doloroso ver um show tão querido cancelado sem finalização – principalmente se considerarmos que existe um nicho de assinantes que só adquiriram o serviço graças a ele -, mas essa revolta que eu vejo por aí não é a resposta. É comum que o fim da fall season seja recheado de cancelamentos, assim como afirmou Reed Hastings, fundador da Netflix, em entrevista recente para a Vulture:

“Nós já cancelamos algumas séries e eu estou sempre pressionando o time de conteúdo. Você precisa tentar fazer coisas ainda mais loucas, porque nós deveríamos ter uma taxa de cancelamento maior.”

Sinto muito que o custo dos mais de 200 títulos de conteúdo Original adicionados recentemente tenha sido séries tão queridas como Sense8, The Get Down ou Bloodline, mas infelizmente o mercado não costuma ter sentimentos.

 

Jôicy Franco
Social Media, 24 invernos.
Basicamente um desenho animado tentando sobreviver no mundo real.

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