Precisamos falar sobre a “Geração Prozac”

Todos já passaram por momentos difíceis, já procrastinaram todos os seus compromissos num dia em que sair da cama e ter qualquer atitude produtiva era impossível. Quem nunca passou horas se martirizando por algum acontecimento enquanto o mundo corria lá fora? Pois bem, uma tarde, um dia, uma semana de luto ou pela fossa de um amor não correspondido…

Até então tudo bem. No entanto, a preocupação começa a surgir quando esses dias de fase azul, como definiria Pablo Picasso, se tornam constantes afetando e alterando a vida social, afetiva e laboral do indivíduo. E por mais que o tema da depressão ainda seja pouco discutido e incompreendido por muitos, é algo que cresce de forma alarmante. As manifestações da depressão acometem entre 10% a 25% das mulheres e entre 5% a 12% dos homens, com aumento gradativo.

Vários fatores podem contribuir com o crescimento do diagnóstico já que, atualmente, vivemos, segundo Zygmunt Bauman, em tempos líquidos de relações volúveis em que nada seria substancialmente duradouro. Nossa busca incessante por informações superficiais e por uma auto aceitação baseada em moldes pré-estabelecidos, afeta os reais valores que seriam indispensáveis para uma boa vivência. Vivemos ansiosos, criamos paranoias com as inúmeras redes sociais e geramos uma instabilidade psicológica.

Tudo isso acaba desenvolvendo vazios e desencadeando os sintomas de tristeza e insuficiência. Essa pressão que vem sendo criada, foi bem retratada pela escritora da autobiografia Geração Prozac, publicada em 1994, que em 2001 veio a ser reproduzida pelos moldes da sétima arte. Protagonizada pela atriz Christina Ricci (interprete da Wandinha em A família Addams), o filme trata da história de Lizzie, uma garota com histórico familiar difícil pela separação precoce dos seus pais e o abandono paterno durante seu crescimento, que acaba conquistando a oportunidade de estudar em uma das faculdades mais renomadas do EUA, no curso de Jornalismo.

O drama, relativamente comum, cresce no momento em que a filha de pais divorciados passa a receber a pressão e a ansiedade da mãe super protetora que despeja uma expectativa de cumprir um sucesso da qual ela não foi capaz de realizar. Num momento em que as drogas e o sexo fácil ganham um espaço espetacular sobre uma juventude de famílias fraturadas, a procura de algo que preencha um pouco a sensação de vazio existencial e a absoluta carência, o drama de Lizzie não encontra ao seu redor elementos que a auxiliem a superar a fragilidade de sua formação psicológica.

Um pai, que se separa e se torna um abandonador – uma figura muito comum na nossa sociedade -, e uma mãe, frágil, que vive sua vida em cima de sua filha – outra óbvia caricatura social. Temos, assim, que as duas figuras mais significativas para um filho não auxiliam, por suas questões, a erguer um indivíduo que tenha recursos para viver sua vida em busca de ideais mais nobres do que a mera necessidade de suprir uma fome desesperadora e mortal de reconhecimento e amparo.

Esse filme, tomado como atemporal, reflete a pressão e a falta de subsídios para lidarmos com uma doença que vem silenciosa por trás de comportamentos que julgamos “passageiros”, mas que precisamos aprender a entender e tratar, tentando ao máximo combater a sociedade líquida que nos assombra e vem sucateando as relações sociais. Dessa forma, trata-se de um bom filme para analisar nossos próprios propósitos e gerar uma maior sensibilidade e conscientização de uma doença tão atual que assola grande parte da população e que precisa, mais do que nunca, ser discutido e explorado com menos tabu e mais informação.

Julia Rodrigues

Quando nasci, um anjo torto desses que vivem na sombra disse: Vai, Júlia! Ser gauche na vida… Contrariando as expectativas do anjo e Drummond a parte.. 21 anos, graduanda do curso de Direito e nas horas vagas professora de inglês, cinéfila, apaixonada por música, aspirante a violinista e por boa [ou má] influência dos signos do Zodíaco, geminiana que odeia mau humor

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Quando nasci, um anjo torto desses que vivem na sombra disse: Vai, Júlia! Ser gauche na vida... Contrariando as expectativas do anjo e Drummond a parte.. 21 anos, graduanda do curso de Direito e nas horas vagas professora de inglês, cinéfila, apaixonada por música, aspirante a violinista e por boa [ou má] influência dos signos do Zodíaco, geminiana que odeia mau humor
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