Quando tirei você de mim

Andando pela casa, esbarrei em uma mala cheia de poeira – ela não combinava com nada do que eu tinha e usava, estava fora de moda, por isso não entendi o que ela ainda fazia ali.

Quando abri, foi uma surpresa: ela estava cheia de tudo sobre você, coisas que eu nem me lembrava mais, mas que ao bater o olho, percebi que estavam bem grudados no meu inconsciente.

Entendi porque ver algumas cenas de filme as vezes me doíam, porque ouvir aquela música me deixava triste e passar em frente aquele bar me incomodava; tudo isso acontecia porque eu estava te carregando comigo ainda e eu juro que não acreditei quando percebi.

Para mim, você já estava longe fazia tempo e não estou dizendo fisicamente – isso você já estava quando ainda estava aqui.

Na minha cabeça, você já estava do outro lado do mundo em relação as minhas emoções, mas hoje eu vi que não, você ainda pesa e isso explica muito das dores que eu sinto as vezes carregando esse chumbo cheio de você. Tanto entulho parado sem serventia alguma e eu ainda guardava isso, por que?

Deixei essa mala cheia de memórias nossas – as piores diga-se de passagem – parada ali num canto da sala e saí, mas me assustei quando tropecei nela andando pela rua.

Precisei parar e revirar tudo de tinha dentro dela e percebi que quanto mais eu mexia, mais eu me aliviava, mais me arrumava por dentro. Me surpreendi ao ver coisas boas ali também que não pesavam praticamente nada. Sentei no chão e chorei, não por sentir a sua falta, mas chorei tudo que estava engasgado aqui, chorei por todas as vezes que engoli seco para me convencer que estava tudo bem, e pelas vezes que tentava viver um ano em um mês para ver se passava mais depressa. Mal sabia que isso só aumentava essa carga enorme que está bem aqui na minha frente.

Já se passaram algumas primaveras e eu consigo falar de coração e alma que passou, mas percebi que algo me prendia a essa bagagem de coisas nossas, eu estava presa a uma linha muito fina, mas extremamente forte, nela estava escrito perdão, a única coisa que ainda faltava eu te dar, a última palavra que faltava pra fechar o teu capítulo na minha vida – que vai de romance a terror.

Desamarrar essa linha não foi nada fácil, ela é fininha e engana a gente. Mas eu sei que no calendário de Deus era hoje que isso precisava acontecer. Hoje não sou mais aquela que você e muita gente conheceu, essa linha quebrei na mão mesmo, sangrou aqui dentro e o dedo, mas era isso que faltava e eu fiz sozinha.

Há muito tempo não sentia minha alma tão leve como de uma criança, destravei o sorriso de vez e consegui abandonar aquela mala feia, fui beber água na cozinha e limpar o choro, voltei para a sala e ela não estava mais lá!

Te dei o que você nunca me pediu, muito menos mereceu, mas te perdoar foi um presente para mim, recebi de volta algo que não tem preço,  minha paz interior.

Caroline Carvalho

Estudante de letras, troco salgado por doce, tentando ser fitness, amo gatos, livros e Netflix. Canceriana.

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