Quando a vida cobra

A vida te cobra e não pergunta se você está pronto ou se quer.

Ela te acerta um jab de direita em uma manhã de domingo quando recebe uma notícia ruim, e sabe que a vida que está acostumado nunca mais será a mesma.

Te cobra uma maturidade que não tem quando você tem uma represa inteira para chorar e segura para se mostrar forte para alguém, quando não sente firmeza nas pernas e pode dar apenas o seu silêncio como resposta ou amparo.

Fecha a conta da responsabilidade e você perde o sono ao ver o saldo negativo, ao somar as atitudes erradas e o tempo perdido e ver que essa conta nunca vai bater.

A vida te cobra o que você só poderá ter ao final das experiências que você entra sem ter feito a inscrição.

Ela te faz pensar que a grama do vizinho é mais verde e que a nuvem com chuva e trovões paira apenas sobre a sua cabeça.

Te ensina na marra artes cênicas quando você levanta e vai para o trabalho ou ao mercado e consegue esconder o buraco que tem por dentro com cada sorriso que dá ao responder “tudo bem” que alguém perguntou por hábito – ninguém responde o contrário, ninguém quer mesmo saber.

Coloca vidas sob sua responsabilidade quando você não dá conta nem da sua, e mostra como cada escolha interfere na vida das pessoas ao redor.

Vai eliminando sonhos adolescentes sutilmente, e você se dá conta disso enquanto toma banho antes de dormir e chora um pouquinho por lá mesmo. Te faz perceber que entrou no círculo vicioso de trabalhar e pagar boletos que você tanto julgava.

Mostra que nem tudo são flores, mas que também nem todos os dias são cinzas e você passa a valorizar mais a cada ano os dias bons.

Te mostra o que realmente tem valor, te faz um ser humano melhor – se você se permitir.

Resiliência é para poucos, esbarramos diariamente com adultos mimados e frustrados que batem o pé e fazem birra para qualquer situação que fuja ao controle – consigo ver a vida dar as costas com a sabedoria que lhes daria como prêmio nas mãos, mas esses sempre reprovam no final.

A vida, muitas vezes, é dura, mãe brava, mas não deixa de recompensar os que se deixaram moldar e amadurecer nas provas que dá.

Você perceberá isso enquanto toma um café numa terça-feira e ainda consegue sorrir e dar risada de uma piada besta, porque vai ouvi-lá sussurrar no teu ouvido que tudo isso vai passar.

Eu sempre acredito nela.

Caroline Carvalho

Estudante de letras, troco salgado por doce, tentando ser fitness, amo gatos, livros e Netflix. Canceriana.

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