Rashid fez sua Primeira Diss e zerou o game

Só para explicar. Quando um cara escreve um rap atacando outro rapper, direta ou indiretamente, essa música é uma Diss. A cultura do hip-hop e principalmente o Gangsta Rap nos EUA dá muita, muita relevância para as Diss.

Um dos maiores nomes do rap mundial, Tupac Shakur, ou 2Pac, é o cara mais notável, pela história que se envolveu, no que diz respeito às Diss. Ele e Notorius B.I.G. protagonizaram a série mais braba de ataques musicais. Tudo começou quando Tupac levou cinco tiros em um assalto e, logo depois, Notorius lançou uma canção que ironizava o fato (ou pelo menos parecia muito).

Tupac não deu muita importância ao fato de que a música havia sido gravada há muito tempo, bastou que fosse lançada logo após os tiros e, lógico, respondeu. A tal resposta continha: um rap muito bem feito, esculhambação para todo lado e uma letra que ridiculariza até a esposa, isso só na letra. No vídeo tem mais. Dá um play.

E a treta estava armada. Em 7 de setembro de 1996, saindo de uma luta do Mike Tyson, Tupac foi assassinado com quatro tiros. Mesmo que prontamente negado, muita gente acusou (e ainda acusa) Notorius B.I.G. e os rappers da costa leste de serem responsáveis, se não diretos, por conta da influência.

A treta na indústria da música, a gente sabe, é treta mesmo. Rola muito dinheiro. Por lá, já alavancou e desandou com muita carreira. Se o artista recebia uma Diss forte, era obrigado a responder à altura, ou mais alto. Senão já era. Tem até listas das maiores Diss, entre outras coisas. O Eminem, por exemplo, é uma lenda das letras de contra-ataque. Dizem que subiu muito com isso e que acabou com uma carreira por aí.

E a moda pegou aqui no Brasil

O rap nacional sempre teve uma característica muito própria, mesmo que com uma boa inspiração da gringa. Com as Diss não é diferente, sempre rolou uma ou outra, mas em 2016 o negócio ficou feio. Nos últimos seis meses, rolaram vários ataques pesados com destaque pra uma música chamada “Sulicídio”, de Baco Exu do Blues e Diomedes Chinaski. Os nordestinos descascam em cima dos rappers do sudeste, mas diretamente para Nocivo Shomon (que manda e responde Diss para todo rapper do hemisfério sul).

Vários caras do mainstream acabam envolvidos em uma Diss ou outra. É o caso do Emicida e Projota, alvos preferidos do próprio Nocivo. Treta antiga do Freestyle na rua.

Os ataques variam entre alguns aspectos que são, de fato, muito importantes para o rap. É sobre o flow do cara, ou das rimas fracas, sobre hipocrisia quando o sujeito fala da sua própria luta e condição social da música e por aí vai.

E o que diabos fez o Rashid?

Michel Dias Costa, antigamente conhecido como Moska e hoje faz sucesso sob o pseudônimo de Rashid, é considerado “especial” por alguns figurões do rap nacional. Ele tem uns sons pesadões (que eu ainda vou colocar em uma #TipList futura), mas o lance aqui é esse, ele zerou o joguinho.

O game das Diss é o seguinte: é tipo uma Batalha Freestyle de rimas só que sem ser ao vivo.

A Tatá Werneck deita.

O malandro posta uma provocação nervosa, o outro responde, aí fica todo mundo comemorando. Tipo assim.

Quem falar mais umas verdades doídas na cara do outro, ganha. Ganha respeito e audiência. E agora cê vai ver porque o Michel zerou a fita. Vê o vídeo e volta.

Pra começo de conversa, vamos separar o vídeo em dois. Na primeira parte temos um Hater-Rashid e na segunda o Real-Rashid. Só ouve a música de novo. Repara nas rimas e compara a complexidade e qualidade de cada uma. Na segunda parte do vídeo, o menino d-e-s-t-r-ó-i.

A mensagem é clara: “No fim, pra mim, cada Diss tem soado assim, como se todo MC tivesse escrito pra si mesmo.”

É claro que somente alguém do calibre do Rashid poderia criticar uma cena dentro da cultura. Isso não é algo que dá para alguma pessoa da imprensa, ou de outra cultura, apontar o dedo e falar “umas verdades”. O negócio nasceu no hip-hop e é característica dele. Mas a letra que foi dada agora é: o que será que ta rolando de verdade?

A primeira e mais gritante sacada é que os caras escrevem altas coisas sobre outra pessoa. Quer dizer, altas não, só baixas. Joga no evento uma porrada de defeitos e lances duvidosos do outro, mas se olhar pra dentro de si mesmo, será que os defeitos não estarão lá também? Essa é a mensagem.

E a parada mais inesperada de todas, que fez os caras dos reactions e análises pirarem: ele consegue fazer uma autocrítica. Impressionante. Consegue ver tudo o que é questionável em si, mesmo sabendo uma explicação pra cada um dos problemas. Mas dá a ideia: criticar é fácil demais, basta ignorar a vida e a história da pessoa.

Sem mais, a letra é uma pedrada na cabeça de quem não consegue fazer uma introspecção e olhar os próprios defeitos. Não só do rap. Porque essa mensagem também é pra você. Você consome ódio pra caramba.

Fica aí o questionamento: por que tretas vendem tanto?

É a última questão que fica subjetiva na letra. Será que os artistas fazem letras atacando outros porque isso rende view, like e dá grana? Dá uma busca por Diss no Youtube. O que mais tem é youtuber fazendo reaction de treta. Analisando briga.

Sabe qual é um dos canais com maior engajamento no Youtube? Treta News! Sabe o Nando Moura que faz sucesso falando de política? Cresceu vertiginosamente falando mal de uma porção de youtuber. Quando falava de música, não rolava.

O que dizer dos reality shows em que o ponto alto é quando a sister solta os cachorros no brother? O entretenimento que simula a realidade é a metáfora perfeita, ou será que a gente pode ignorar um monte de gente “sugerindo” a possibilidade da Fátima Bernardes ser estuprada, só porque colocou um dilema ético em discussão no seu programa?

O programa Roda Viva, há algumas semanas, abordou o assunto dos haters. Entre as várias formas de conexão e as inúmeras características do relacionamento on-line, um dos questionamentos feitos a Leandro Karnal e Luis Felipe Pondé, foi o motivo de o hate gerar tanto engajamento. Basta uma corridinha nos comentários do Youtube, ou melhor, do G1, para ver o quanto a galera se dedica ao ódio e ao insulto.

Tupac até já disse que as Diss eram meio que uma descarga, uma forma de botar a agressividade pra fora. Um jeito de não dar merda fisicamente.

Sei lá, acho que tô com o Rashid.

Kaio Cezar

Kaio, com K. 28 anos. Estudei Publicidade e Propaganda, Jornalismo e Marketing, talvez devesse ter feito Educação Física. Gosto de mais coisas do que deveria, mas em especial esportes e artes. De link em link a gente vai de Pink Floyd a dinossauros da era mesozóica na interweb.

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