São tempos difíceis para as feministas

Não está sendo fácil ser feminista ultimamente.

Cada dia que passa é um ídolo a menos pra gente admirar. Eu mesma, dia desses, acordei com a notícia de que Kevin Spacey, o Frank de House of Cards (série e ator que amo!) tinha não só sido acusado de abusar sexualmente de um rapaz que tinha, na época do ocorrido, 14 anos, como também tinha dado a desculpa que estava bêbado e usou sua sexualidade de muleta para não ser tão criticado.

Ontem foi o Ed Westwick, o Chuck Bass, amor teen de nove entre dez garotas da minha geração, a ser acusado. A atriz Kristina Cohen relatou em seu Facebook uma cena ocorrida em 2014 em que foi abusada pelo ator e coagida pelo seu namorado da época e não denunciá-lo, pois isto lhe causaria problemas. A atriz resolveu tornar o caso público depois de ver Ed sendo homenageado pela Universidade de Oxford como uma das “pessoas modelos para o mundo”.

A atriz entra para uma extensa lista de atrizes que quebraram o silêncio e denunciaram seus abusadores este ano, juntando-se a nomes como Angelina Jolie, Gwyneth Paltrow, Cara Delevingne e Lea Seydoux. Em comum, além da fama, elas tiveram o medo da represália que poderiam sofrer e a coragem de romper a barreira do silêncio e falar sobre algo tão delicado se tratando da sociedade machista que vivemos.

Enquanto a lista das mulheres que denunciam cresce, a lista dos atores que não se envolveram com algum escândalo deste tipo vai reduzindo, com destaque para as denúncias contra Harvey Weinstein, poderoso produtor americano. Em uma busca no google é fácil encontrar um artigo com acusados de abuso e assédio até agora. E a gente espera profundamente que esta lista não cresça cada vez mais, mas está difícil.

Bom, a importância de todas estas mulheres conseguirem tornar estes casos públicos é inegável. Não a toa, quando um caso apareceu, os outros começaram a surgir com uma rapidez incrível. Nós, mulheres, estamos descobrindo por aí que nossa força é coletiva. E que ver uma de nós falando em alto e bom tom da violência que viveu, fortalece outras milhares de nós. A força de uma mulher espelha em várias outras. Denunciar a violência é um ato político porque não diz respeito apenas a quem a sofreu, mas sim a todas nós.

O problema é o outro lado: quando você duvida da denúncia de uma mulher, você também faz parte deste ciclo de violência. Grande parte dos homens acusados são poderosos, grande parte das vítimas foram coagidas. São, em sua maioria, mulheres, que já carregam consigo um histórico de desconfiança e julgamentos. Duvidar, pedir prova, questionar porque ela não denunciou antes, sendo que tudo isso geralmente vem explicado no texto da vítima, não ajuda em nada. Não é fácil denunciar, ter provas contra um estupro, ter testemunhas. Não é fácil.

Pior, a maioria das pessoas que “passam pano” não o fazem em todos os casos. Relativizam. As mesmas pessoas que aplaudiram as mulheres que denunciaram Weinstein, duvidam que Ed faria isso pelo simples fato dele ser o Chuck Bass. Ou porque ele é bonito e não precisaria disso. Ou porque não querem que o ídolo tenha cometido tal atrocidade.

Então, em tempos que as mulheres, cada vez mais, conseguem ter força e voz, conseguem se unir e tentar denunciar tudo aquilo que foi calado nelas por muito tempo, não seja a pessoa que vai defender o agressor porque ele é bonito, ou legal, ou porque você é fã, ou porque ele é seu amigo.

Eu sei, não é fácil ser feminista nestes tempos, mas é cada dia mais necessário.

Julia Calixto Colturato

Psicóloga, mas queria mesmo era ser famosa. A louca dos signos (sagitariana), ama reality show e Anitta e não se aguenta quando o tema da conversa é feminismo.

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Psicóloga, mas queria mesmo era ser famosa. A louca dos signos (sagitariana), ama reality show e Anitta e não se aguenta quando o tema da conversa é feminismo.