Sem tempo para emoções

Parece que vivemos uma disputa diária para saber quem vai ganhar o prêmio de iceberg do ano.

E a disputa anda acirrada, ninguém pode ser o primeiro ou o último a mandar mensagem, dar abraços que transmitam 1°C de calor ou fazer uma ligação antes de dormir.

Está proibido sentir saudades sem ter algum interesse pessoal com a visita, ou ter algum contatinho na fila de espera.

Olhar nos olhos só se for para tirar um cílio que caiu. Fazer planos para o próximo final de semana é quase um crime.

Todos com agendas cheias, mensagens do WhatsApp para responder desde o final de semana e solicitações de amizade para aceitar. O volume de conhecidos e crushs aumenta na mesma proporção que o vazio.

A ideia de que a próxima pessoa será melhor ou de que ninguém presta consome o pouco de tempo que você tem antes de dormir, e te faz sonhar cada vez menos.

Uma vida cheia de pessoas que se esvaziam de propósito com base em decepções anteriores com pessoas que também se decepcionaram e se esvaziaram.

As poucas que ainda se permitem sentir nós encontramos em um boteco, sozinhas na sexta à noite, onde trocamos histórias falidas e risadas, mas no outro dia ninguém se lembra, ninguém quer se lembrar, porque o primeiro que procurar por algo é o mais fraco, perdeu o jogo.

O buraco só aumenta nas noites que você deita e chora um pouquinho sem querer, sem entender o motivo, até pegar no sono.

Nos protegemos de pessoas que não conhecemos, jogamos fora possibilidades e muitas vezes somos obrigados a engolir o “e se” que não desce nem com toda a água do mundo.

Nos aprisionamos em nossas próprias gaiolas e esperamos alguém abrir o cadeado que só nós sabemos o segredo.

Nos afastamos do sol e tentamos nos acostumar com o frio, com a individualidade que, vista de perto, é amarga. Queremos o troféu iceberg para postar no Instagram com um sorriso no rosto e um buraco no peito, mas se ninguém vê, está tudo bem.

O despertador já vai tocar.

Caroline Carvalho

Estudante de letras, troco salgado por doce, tentando ser fitness, amo gatos, livros e Netflix. Canceriana.

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