Sou feio, logo, estou na moda

Ok, esse texto vai muito além do fato de termos descido do salto e afrouxado a gravata. E, feio, aqui – que fique claro – não tem valor pejorativo

Adoro a revista AMARELLO, uma publicação independente dividida em temas específicos que fala de cultura, artes, cinema, música, moda e política. Por ser tudo isso, também é uma revista bem difícil de ser encontrada. As que tenho em casa, por exemplo, foram compradas diretamente do site da revista – o preço não é muito atraente, o frete é caro, as encomendas demoram para chegar… Enfim, existem algumas dificuldades pelo meio do caminho. O que me fez uma pessoa de sorte, de certa forma. Na semana passada, durante uma tarde de compras, uma amiga ganhou a edição de verão 2014, que tem o tema “beleza”. Não deu outra, ganhei.

Passei o final de semana passado todo focada nela, li inteira – é uma edição realmente muito boa. Ao terminar, me peguei pensando sobre o que é beleza, afinal. Cheguei a duas conclusões e divido com vocês. A primeira é que, como todos os opostos, o belo não existe sem o feio. A segunda é qual foi o conceito final de beleza que assumi para mim: belo é tudo aquilo que interrompe uma sequência ordinária de fatos por sua singularidade, quase um susto – aqui, além da beleza óbvia que atrai já em um primeiro momento, entram a falha na sobrancelha, o nariz torto, diastemas, cicatrizes… Só para mencionar o belo manifestado em seres humanos.

Talvez entre nessa linha o assunto que trago a tona: o belo convincente, como estávamos costumados a ver até o século passado, tem caído de moda cada vez mais. Afinal, a beleza até atrai em um primeiro momento, mas, muitas vezes, deixa tudo vazio de significado. Fato que é bem perceptível na arte, por exemplo. Na edição da AMARELLO em questão, o jornalista Silas Marti afirma que “desde que a arte não precisa mais arrebatar pelo registro de algo belo, tenho a sensação de que os artistas já não se esforçam para impressionar pela beleza. No que se define como a estética do feio, ou talvez do estranhamento, a ordem primordial parece ser a de desfazer certezas e causar um ruído”.

De fato: não apenas na arte, mas, na cultura popular, houve – e há – um boom da imagem do feio. Algumas das maiores bilheterias da Disney são de filmes que evocam monstros, uma das imagens tradicionais do feio. Os brinquedos de monstros estão na crista da onda. Os fãs de Lady Gaga são little monsters. O feio, na cultura de hoje, está na moda. Não por acaso, o assunto chegou às passarelas – e, claro, às ruas – de maneiras variadas e sem causar muito burburinho na mídia (afinal, a palavra “feio” não vende roupa).

Quase que sem querer, as pochetes – símbolo do que há de mais cafona no mundo da moda – voltou a estampar catálogos e campanhas. Não demorou para virarem objeto de desejo. E, precisamos admitir, elas têm seu charme e levam muita praticidade ao dia a dia.

Depois de Chanel, Gucci e até Hermés, não demorou para as pochetes chegarem aqui
Cris Barros e Helô Rocha foram apenas duas das muitas marcas que investiram no acessório

Quem também saiu das gavetas inferiores (já há algum tempo) e deu uma pinta nas ruas como quem não quer nada foi o pijama. O sucesso foi tanto que, atualmente, é possível encontrar, inclusive, modelos variados: a moda vai desde o conjuntinho calça + camisa até as camisolas longas e mais elaboradas. Sorte a nossa: nada mais confortável que poder trabalhar de pijama, certo?

Da cama direto para o closet das fashionistas: o pijama na vida real já dura mais de cinco temporadas

Mas, a polêmica mesmo aconteceu quando os chinelos Adilettes, da Adidas, conquistaram gregos e troianos dentro e fora do mundo da moda. Depois de uma temporada dos modelos estilo Birkenstock voltarem à cena, a Adidas nos sugeriu sua versão – que, vamos falar a verdade, é bem horrorosinha. Caso você apareça com um desses em casa há chances de a sua mãe perguntar onde você vai de Rider (foi assim comigo e com alguns amigos, mas passa).

Queridinhos dos fashionistas, os chinelos com tira grossa frontal causam estranheza a qualquer pessoa de imediato

Por falar em sapatos… Stella McCartney não deixou por menos e lançou o que se parece com um sapato oxford se equilibrando em cima de tijolos tratorados. É esquisito, é diferentão e é incrível do mesmo jeito.

Oxfords Stella McCartney, à venda aqui: http://bit.ly/2arJoyO
Oxfords Stella McCartney, à venda aqui: http://bit.ly/2arJoyO

Entre outros tantos itens que entram na classificação dos feios, alguns autores têm várias hipóteses para explicar porque isso vem acontecendo. A primeira é que, com a crise das sociedades modernas, as pessoas se associam a coisas despolitizadas. Aí o feio, que era um elemento de protesto, vira um elemento de identificação. E você vê um feio docilizado, cômico, banal. A feiura fica simpática. José Gil, filósofo português, diz que o corpo, hoje, passa por tantas transformações e que a fronteira entre o natural e o artificial está tão misturada, que, se antes os monstros assustavam, hoje atraem. Perdeu-se a noção do que é humano. Outra tese é a de que a identidade do sujeito, hoje, é potencialmente contraditória. Então a fronteira entre o belo e o feio fica diluída. Para o sociólogo Zygmunt Bauman, o interesse pelo feio dócil ainda pode ser uma forma de tentar amenizar o medo da morte.

O interessante, entretanto, acima de tudo e além do motivo da ocorrência do feito, é perceber que, mesmo assim, há uma contradição. Ao mesmo tempo em que o feio cresce, há uma valorização do corpo como cartão de visitas, com selfie e Photoshop. O feio é exposto nas artes, mas qualquer sinal de feiura é excluído na exposição da imagem pessoal. Por que será, né?

Olívia Andrade Nicoletti

Olívia tem 26 anos, é repórter de moda, artista, desastrada, bebe muito gim e coca-cola e escreve sobre amor quando tem tempo.

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