Trocadilhos Infames


Em uma aula acerca de “trocadilhos na publicidade”, ao corrigir as sugestões dos alunos na atividade desenvolvida, fiquei com a sensação de que quanto mais jovens somos mais potencial criativo – devido à falta de censura – damos conta de liberar.
Não pretendo citar aqui os trocadilhos criativos que surgiram desse exercício. É bem provável que meus alunos autorizassem a divulgação de suas ideias – não existe criatura com mais autoestima que publicitário ou estudante de publicidade –, mas não quero correr o risco de esquecer de alguns. Prefiro explorar os trocadilhos de crianças, autores que nem sabem o nome desse recurso linguístico de que, espontaneamente, fazem uso.
Na publicidade, as mensagens devem ser muito claras e objetivas. Essa recomendação, muitas vezes, faz os redatores recorrerem a ideias ou ditados já conhecidos pelo grande público, visando facilitar a interpretação da campanha. Parece ser mais fácil apresentar as qualidades de um produto usando conceitos já difundidos e que o público rapidamente reconhece. Sendo assim, não é à toa que os publicitários adoram palavras polissêmicas, frases de efeito, figuras de linguagem e trocadilhos, até mesmo fora do ambiente de trabalho. Passam a gostar de exibir (pensar em voz alta) suas piadas internas, na busca por ampliação de significado.
Bom, não é só publicitário que curte trocadilho e faz uso de jogos de palavras. Parece que todo brasileiro já nasce com habilidade para usar essa ferramenta retórica que se tornou um recurso humorístico bem popular. É possível observá-la até nos diálogos infantis, mesmo que a criança não tenha a intenção de fazer um trocadilho. Ela o faz sem perceber e, talvez por esse motivo, suas construções verbais sejam tão ricas de significado.
Recentemente, terminei de assistir Strangers Things, série que apresenta trocadilhos (de textos e de imagens) e faz uma homenagem aos filmes de ficção científica dos anos 80. A criatura horripilante e a ambientação do “mundo invertido” dessa produção me fizeram lembrar de algumas tardes com o meu primeiro aluno (no primeiro ano de faculdade, dei aulas particulares), um garotinho que adorava imagens monstruosas e não curtia ler e estudar. Para incentivá-lo a ler o texto ou o livro que o colégio lhe passava como tarefa, costumávamos, após as leituras, desenhar as nossas interpretações das obras. Quanto mais esquisitos e assustadores eram nossos rabiscos, mais nos divertíamos. Uma vez caí na besteira de mostrar a ele as ilustrações do purgatório e do inferno de uma versão da Divina Comédia que minha mãe tinha em sua biblioteca. Ele adorou… Principalmente os “condenados” e, antes de ir embora, sempre queria dar uma espiadinha em outras páginas da obra de Dante. Não sei se fiz bem ou mal para essa criança, deixando que ele tivesse contato prematuramente com imagens tão fortes. Só sei que ele não se assustava, vinha muito animado para as aulas e passou a tirar notas muito boas. Nunca mais tive notícias dele, mas nunca me esquecerei de expressões (trocadilhos) que ele usava: “Odeio estudar sujeito e prejudicado (predicado)!” ou “Que história sem pé nem sapato (cabeça) essa, né, tia?”.
Tenho guardadas na memória várias outras ótimas trocas de palavras de crianças muito criativas ou distraídas. Impossível citar todas aqui, mas seguem algumas que revelam o quanto a nossa língua portuguesa é rica e o quanto ela provoca confusão ou insigths criativos, naqueles que ainda não a dominam.
Até hoje quando o Lucca vê um cachorro de raça que nunca viu antes, fica encantado e pergunta: “Esse é de qual marca, mãe?”. Depois que tenta memorizar a raça, acaba sempre repetindo a mesma ladainha: “Ele é fofo, mas eu queria mesmo é um Bundog!”
Quando o Frederico tinha 5 ou 6 anos, eu ainda o chamava de príncipe e na tentativa de retribuir o mimo, ele dizia: “Mãe, você é minha princesa… Pai, você é meu pizza.”. Ainda por volta dessa idade, quando os amigos discutiam para decidir qual herói iriam encarnar numa brincadeira, o Fred os alertava: “Nenhum deles existe de verdade. Eles só existem na nossa imaginagem.”.
Inesquecível mesmo é a troca que o irmão de minha amiga Margarida fez numa reunião só de mulheres, em que foi levado pela mãe. Ao ver uma bússola dando sopa, em cima da mesa, pegou o aparelho e gritou: “Mãe, como funciona mesmo essa buceta?”

Alessandra Possato

40tona. Paulista, filha de mineiros. Mãe do Fred e do Lucca (curte ser mãe de meninos). Apaixonada por Cinema e Dança. Estudiosa de Design, Moda e Cibercultura. Publicitária e professora universitária. “O que se leva da vida é a vida que se leva”.

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