Um desabafo sobre o 8 de março

É menina, compra roupa rosa. Põe um laço lindo na cabeça; compra boneca. Cresceu, precisa usar sutiã. Senta que nem mocinha, cruza as pernas, come direito, não pode falar palavrão, arrotar então? Nem pensar! Coloca uma maquiagem – pelo menos um batonzinho -, arruma (alisa!) esse cabelo, não corta curto – é coisa de homem -, põe uma roupa bonitinha senão não arranja um namorado: muito curta, muito decotada, mostra muito a barriga, tá marcando a calcinha, não da para usar sem sutiã, tá VULGAR, agora tá muito larga, parecendo um homem. Ajuda a arrumar a casa, aprende a cozinhar: homem se conquista pelo estômago, hummm já pode casar! Você é muito desorganizada por ser uma menina, capricha na letra, você tem que ser mais doce. “Fiufiu”, “Ô, lá em casa”… Liga não, estão só te elogiando, aceita. Come menos, faz dieta, corta o glúten, mulher gorda não arruma namorado. Você tem que ser bela, recatada e do lar, mulher não bebe e dá vexame, é a coisa mais feia do mundo. NÃO TRANSE!!!! Arrumou um namorado? Agora tem que segurar. Se ele for embora, você que não foi boa. Te traiu? Foi escroto? Liga não, homem é assim mesmo, é do instinto deles. Vai trabalhar, não pode ser sustentada por homem, mas não esquece de arrumar a casa, cuidar dos filhos e fazer comida. Relaxa, se você der sorte, arruma um marido que te “ajuda”.

As marcas oferecem flores, descontos e batons. O feminismo está na Globo, no cinema e no Facebook. Mas continua sendo aversivo pra mina da favela e mimimi pro cara do teu lado. As violências são diárias e as pessoas insistem em dizer que feminismo é sobre igualdade, mas NÃO É! É sobre equidade, é sobre dignidade, é sobre ficarmos atentas todos os dias para não reproduzimos – nós mesmas – o discurso que nos aprisiona. É sobre luta e libertação das nossas vidas, dos nossos corpos. É caminho longo e árduo a ser percorrido, dói muito, de vez em quando dá vontade de desistir, mas desistir não é opção.

Dia 8 de março não é dia de parabenizar a doçura – que também se diz instintiva – das mulheres. É dia de recarregar as energias para lembrarmos o porquê da nossa luta, que é diária!
Desculpem o textão, mas eu precisava lembrar a mim mesma e as mulheres fodas e fortes que me rodeiam, que hoje – mais do que qualquer outro dia – é dia de gritar, de se fazer ouvir, de fazer acontecer e de lutar como uma mulher!

Julia Calixto Colturato

Psicóloga, mas queria mesmo era ser famosa. A louca dos signos (sagitariana), ama reality show e Anitta e não se aguenta quando o tema da conversa é feminismo.

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