Uma camiseta nunca é só uma camiseta

O mercado da moda nos bombardeia todos os dias com novidades e alimentam nosso consumo desenfreado. É produzido muito mais do que precisamos e esse já é um dos principais problemas, mas você já parou para pensar onde e como foi produzida, quem são as pessoas envolvidas na fabricação e quais são os impactos de cada coisa que compramos?

Os impactos decorrentes da produção percorrem toda a cadeia produtiva têxtil: desde o plantio até a confecção da peça, além dos impactos derivados da comercialização. Ao longo desse processo, pode acontecer contaminação do solo, consumo de água, energia, emissões de poluentes e resíduos sólidos em quantidades absurdas. Sem contar o aspecto social de mão-de-obra explorada de maneira análoga ao trabalho escravo, que infelizmente é uma prática muito presente na produção de grandes lojas e marcas que terceirizam a produção FORA TEMER e a responsabilidade sobre a questão.

O ponto é que todos têm responsabilidade sobre esse tipo de produção sobre o que consumimos. Toda essa estrutura é sustentada porque somos encorajados e convencidos a comprar cada vez mais. Comprar agora, comprar mais barato, comprar constantemente. Nós somos partes dessa “máquina”.

Não comprar exageradamente é um grande desafio para mim. Estou sempre tentando evitar o shopping e aquela bendita loja com aquela sandália Isabelli que grita o meu nome. Lembrar que eu não preciso de uma bolsa com um material tão sem vergonha porque o bordado da alça é maravilhoso. Que definitivamente não tem mais espaço para uma única calça jeans no meu armário. Por mais que eu adore, não dá para comprar mil peças de veludo. E não é só com roupas, me controlo para não comprar mais livros do que consigo ler, que faz tempo que não desenho ou pinto para comprar tantos tubinhos de tinta ou canetinhas, tecidos sem propósito, um novo creme de hidratação para o cabelo que derrete, um sucesso. E admito que esse controle provoca minha ansiedade, fico frustrada. O que não significa que se eu comprasse, me sentiria melhor.

Conversando com alguns amigos, descobri que essa frustração não é só minha (graças a Deus, amém!). Deixar de comprar porque está sem dinheiro ou porque está tentando ser responsável, às vezes provoca uma dor parecida. Estamos dentro de um sistema que te sufoca, mas tentar sair dele é tão complicado quanto permanecer. Exige uma mudança e uma concentração que nem sempre estou pronta para fazer ou ter.

É preciso tomar consciência do processo e provavelmente é difícil saber por onde começar. Não existe um vilão para pintarmos o rosto e irmos para rua até ele cair. É um emaranhado de fábricas, corporações, acordos, acionistas, petróleo, crédito barato, mão-de-obra chinesa, colombianos em buracos paulistanos, escândalos de marcas famosas que continuarão na ativa… E mesmo quem faz aquela coleção maravilhosa e tenta fugir disso, acaba cedendo e transferindo sua produção para o exterior e entregar algo mais barato, mais rápido, para mais lojas. E depois dessa loucura, a bomba vem em cima de nós. “Seja responsável na hora de comprar”, eles dizem (eu também digo, disse ali em cima).

Isso não quer dizer que você pode fazer o alienadinho e continuar a comprar uma brusinha por semana em qualquer lojinha. Um bom começo é ter estilo, se você é cuidadoso na hora de se vestir, é exigente com a modelagem, qualidade da costura, material, consciente do que realmente precisa e vai usar, já garante que você pense para comprar. Evita a tentação de comprar só por comprar.

Levem a moda a sério. Se você anula sua responsabilidade no processo, se a empresa que produz se anula, é muito conveniente. São peças lindas, tendências, valores malucos, mas que é consumida porque você paga pelo status. É fácil demais desconversar sobre as condições de trabalho de quem faz, os impactos socioambientais na produção e descarte. A moda precisa ser cobrada de forma séria também.

É honrado você começar a colocar algum rigor no seu consumo, mas isso não é só pessoal, é político, como quase tudo na vida. Não é impossível forçar a mudança. Use a sua voz, faça textão no Facebook, boicote a marca que usa mão-de-obra escrava, pare de comprar só porque é baratinho, você nem precisa de tantas roupas assim. Se as empresas fossem legalmente obrigadas a arcar com os custos reais de seus impactos ambientais, a água, florestas e comunidades que são devastadas, a “máquina” funcionaria diferente.

É absurdo abrir o meu armário e encontrar blusas compradas há meses ainda com etiqueta. É absurdo comemorar a caixa que chegou pelo correio com uma encomenda que você nem lembra mais o que era. É absurdo ficar indiferente quando chega a notícia de que tal marca era “sustentada” por pessoas algemadas à máquinas de costuras em verdadeiros buracos, sem a menor dignidade.

Já pararam para observar quantas marcas importantes estão comprometidas com a iniciativa Out Of Fashion da RAN? Elas se comprometem a fazer mudanças em sua cadeia de fornecimento visando diminuir impactos ambientas. Ou reparou quantos desfiles importantes aconteceram usando tecidos reciclados? Ou em manifestações incríveis no meio da passarela? Ou daquela marca que precisou se desculpar pela estampa cretina de escravidão? É disso que eu estou falando. Uma movimentação, um sinal, ações que comecem pequenas e incendeiem todo o mundo. Nós precisamos fazer algo.

Segue aí o documentário A História das Coisas (The Story Of Stuff, 2007), produzido por Annie Leonard, que ilustra muito bem o estilo de vida predatório e louco que levamos. Expõe a triste realidade do consumo e impactos causados pelo atual sistema no meio ambiente e sustentabilidade do planeta, sociedade e o custo real das coisas que utilizamos e consumimos.  Uma camiseta, nunca é só uma camiseta.

São 20 minutinhos para pensar sobre um dia inteiro. Ative as legendas.

Patrícia Paola Almeida

Trocando certezas por questionamento, em busca de uma vida mais simples, plena e consciente. Costureira apaixonada, louca pelas palavras e libriana em níveis extremos.

Comments

comments

About the Author

Patrícia Paola Almeida
Patrícia Paola Almeida

Trocando certezas por questionamento, em busca de uma vida mais simples, plena e consciente. Costureira apaixonada, louca pelas palavras e libriana em níveis extremos.