A vida recomeça toda vez que a gente está a fim

A frase “a vida começa aos 40” é um grande incentivo aos quarentões, mas também um grande exagero se lembrarmos de tudo que já vivemos até aqui. Mesmo assim é dessa forma que tentamos nos sentir quando alcançamos essa idade, que já foi considerada o início do final da vida.

Novos projetos e até mesmo mudanças radicais acontecem em qualquer faixa etária, basta que estejamos vivos. Mas parece que, quando chegamos aos 40, uma coragem inexplicável vem à tona, revelando nova força e novos caminhos em busca da tão desejada felicidade. Talvez porque, no século XXI, chegar aos 40 anos passou a significar poder viver mais 40 anos.

Nessa época da vida, muita coisa não planejada ainda pode acontecer e mudar drasticamente o nosso futuro. A perda de um emprego, a necessidade de mudança na área profissional e até mesmo uma gestação podem nos surpreender nessa altura da vida.

Três de minhas primas engravidaram depois dos 40, quando seus filhos caçulas já eram adolescentes. Imagino que elas não pularam de alegria logo que souberam da novidade. Devem ter sentido medo da situação não planejada. Mas se saíram muito bem e até rejuvenesceram ao criar com muito amor e dedicação essas crianças.

Segundo os médicos, a fertilidade cai significativamente a partir dos 35 anos. Eles afirmam ainda que, em gestações após essa idade, há significativo aumento de riscos para a saúde da mãe e do bebê. Não aconselho que as mulheres ignorem essas informações, mas eu experimentei uma gestação muito tranquila (do Lucca) após os 35 anos e testemunhei a mesma situação saudável nas gestações de minhas primas, que já estavam com mais de 40.

Já a fertilidade quanto à geração de novos projetos de vida, entre as amigas quarentonas, ao contrário de queda, só tenho observado crescimento. Tenho muitas amigas que deram grandes e novos passos ao entrarem nessa instigante faixa etária. Uma voltou para a faculdade, escolhendo um curso bem diferente de sua primeira profissão. Outra decidiu aprender tocar um instrumento musical. Outra se divorciou, casou novamente e engravidou de seu primeiro filho. Outra se matriculou numa academia de Muay Thai. Outra virou fotógrafa. Outra começou correr e participar de provas (corridas) importantes. Outra virou triatleta. Outra passou a fazer parte de um coral de destaque na cidade. Outra resolveu assumir e cuidar dos negócios do marido. Outra se mudou para o litoral e montou uma linda pousada. Outra investiu todo o seu dinheiro em um negócio muito ousado e está se dando muito bem.

Eu também iniciei a fase dos 40 com várias reviravoltas: divórcio, divisão de bens, retorno à vida de solteira e, depois de um ano e meio, ampliação da área de atuação profissional e volta às aulas de balé.

No primeiro dia em que meus filhos me flagraram vestindo meia-calça, collant e sapatilha, não reagiram de forma muito positiva. O Fred me pediu para nunca descer do carro, (no colégio) vestida daquele jeito. O Lucca não entendeu porque tive vontade de voltar fazer balé: “Eca! Aula de balé, mãe? Deve ser muito chato!”. Todas essas desaprovações só reforçaram um dos argumentos da amiga que me convidou para voltar: “nós, mães de meninos, merecemos um tempo e um espaço ‘bem cor de rosa’ só pra gente.”. Hoje eles ainda não se declaram a favor, mas me avisam quando veem um leve desfiado em minha meia-calça ou quando notam que meu coque está se desfazendo.

As mudanças na minha vida de quarentona não pararam por aí: hoje tenho um relacionamento estável (e intenso) com um homem mais jovem e desfruto da cia de mais duas crianças, em finais de semana e férias. Agora conto com a cumplicidade da enteada que também gosta de dançar e do compartilhamento de muitos outros prazeres bem comuns no universo feminino.

Enxergo as desvantagens físicas (estou envelhecendo e não adianta negar) de minha idade atual, mas descobrir que a vida pode receber uma nova carga de energia e reiniciar a qualquer momento, mesmo que tenhamos acreditado que as fases anteriores foram o auge de nossas vidas, faz valer a pena enfrentar qualquer dificuldade.

Passar pelos 30 e chegar aos 40, conscientes de que sempre é tempo de irmos atrás do que nos fará feliz – sem desmerecer tudo de especial e significativo que foi vivenciado anteriormente –, devem nos encaminhar muito bem para os 50, 60,70 e assim por diante.

O Lucca me perguntou até quantos anos as mães vivem. Respondi que elas costumam durar muito e que, quando morrem cedo (devido a um acidente ou doença), continuam cuidando dos filhos lá do céu. Ele insistiu e quis saber quanto tempo eu vou viver. Disse que gostaria de chegar aos 80, mas que meu avô Joaquim (bisavô dele) viveu até os 102 anos e até conheceu o Fred (o primeiro neto da vovó Milot, a filha caçula “temporona” dele, minha mãe). Ele se empolgou e disse que gostaria que eu também vivesse até os 100 anos. Aff! Misericórdia!

Bom, já que desejo viver até os 80 (e tem gente torcendo para eu viver até os 100), vou tentar não esquecer que a vida é o que fazemos dela e, enquanto estiver viva, gostaria de me reinventar sempre que necessário, ao lado daqueles que amo e que me fazem tão bem.

Alessandra Possato

40tona. Paulista, filha de mineiros. Mãe do Fred e do Lucca (curte ser mãe de meninos). Apaixonada por Cinema e Dança. Estudiosa de Design, Moda e Cibercultura. Publicitária e professora universitária. “O que se leva da vida é a vida que se leva”.

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