Violência policial: um triste combustível para o mundo da música

O Brasil tem vivido um período sombrio desde o impeachment golpe no ano passado. O novo governo, com medidas impopulares, tem inflamado parte da população que não se conforma com as políticas elitistas adotadas pelo grupo de empresários que financiou o golpe para conter a crise econômica.

Diante desses acontecimentos, estão ocorrendo manifestações e passeatas quase toda semana na capital do país. Na última terça-feira (25), foi a vez dos indígenas protestarem em frente ao Congresso Nacional. A pauta era a retomada das demarcações de terras e a saída do atual Ministro da Justiça, Osmar Serraglio.

O esperado nesse caso (em um mundo civilizado) era que a polícia comparecesse e trabalhasse como auxílio aos manifestantes, fazendo cordões de isolamento, contendo eventuais tumultos e a porra toda. No entanto, não foi o que aconteceu. Em certo momento, os indígenas quiseram colocar caixões nos espelhos de água (piscinas que ficam em frente aos prédios), representando as lideranças mortas em confrontos com o policiais, fazendeiros, políticos, gente rica e com as mãos sujas de sangue; foi então que a polícia mostrou a que veio: confronto, truculência, bombas de gás, abuso de poder… Nada novo sob o céu.

(Wilson Dias/Agência Brasil)

Polícia! Para quem precisa! Polícia! Para quem precisa de polícia!

O irônico dessa história é que os caras estavam em Brasília (BRASÍLIA, MANO!) e foram usados para proteger o congresso (O CONGRESSO, MANO!). Será que nem assim fica claro que o despreparo da corporação tem interesse de uma minoria cheia da grana?

Percebemos então, que situações como essa demonstram que a força bruta do estado é exclusiva com os mais pobres. A polícia não agiu com essa truculência nas passeatas gourmet dos anos retrasado/passado. Assim como ela não invade armada até os dentes as propriedades construídas de forma ilegal em local proibido, como uma certa mansão em Paraty, no Rio de Janeiro…

A questão de classe é tão gritante.

 

Servir e proteger, né? A quem mesmo?

Essa crítica muitas vezes pode ser mal interpretada. É como se a opção que temos atualmente, e isso inclui toda a agressividade, o despreparo em situações de risco e, infelizmente, um número absurdo de mortes atribuídas à polícia, entre muitas outras mazelas, fosse a única que temos, e que criticar o sistema na forma como ele é e seus mecanismos, fosse coisa de bandido.

Sabe aquele clichê do “Seu Zé da padaria” que não sabe conversar, que tem sempre uma opinião formada sobre os assuntos e a chance de diálogo é zero? Usa de bordões fascistas como “bandido bom é bandido morto”, “quem não gosta da polícia é bandido”? Então, é mais ou menos isso que nos deparamos ao criticar o comportamento violento praticado pela polícia. Pois, por mais que alguns estudos e números sobre o assunto comprovem que esse despreparo é um mal que coloca em risco a própria integridade do policial, algumas pessoas não estão dispostas a dialogar.

Voltando à música, os artistas com maior conhecimento de causa, ou seja, que presenciam com maior frequência o abuso ou violência por parte de quem na verdade deveria proteger, são os que mais escrevem sobre o assunto. Há entre uns e outros, alguns mais exaltados, como é o caso dos grupos de funk carioca, o chamado “proibidão” que se coloca como inimigo da corporação e do indivíduo, empregando nas letras a mesma violência criminosa praticada por aqueles que são os criticados.

No entanto, artistas com uma capacidade maior de leitura da situação e com discernimento para fazer com que a crítica tenha fundamento, batem nessa tecla de forma mais sutil, e um tanto quanto mais dolorida.

A polícia só existe pra manter você na lei, lei do silêncio, lei do mais fraco: ou aceita ser um saco de pancada ou vai pro saco.
A programação existe pra manter você na frente, na frente da TV, que é pra te entreter, que é pra você não ver que o programado é você.
Acordo, não tenho trabalho, procuro trabalho, quero trabalhar.
O cara me pede o diploma, não tenho diploma, não pude estudar.
E querem que eu seja educado, que eu ande arrumado, que eu saiba falar
Aquilo que o mundo me pede não é o que o mundo me dá

Aparentemente, a letra do Gabriel, o Pensador, deu essa porrada toda na sociedade, na polícia e afins e passou despercebida onde era pra doer. Não são poucos os que atribuem a ela à sua indignação seletiva e usam do refrão de forma vulgar para bostejar ideais meritocráticos e coisas pavorosas do tipo.

O que não é o caso do Emicida, que chegou a ser preso por desacato ao criticar a polícia em Dedo na Ferida.

Ora, ora, que curioso isso, hein? A liberdade de expressão é linda no papel!

 

Infelizmente, a violência policial é uma realidade. Dados da Anistia Internacional relatam que o Brasil possui a polícia que mais mata no mundo. Ainda, segundo números mais recentes divulgados no 10º Anuário de Segurança Pública, ao menos nove pessoas morrem diariamente no país pelas mãos de um policial. Números que, se comparados com a Inglaterra, por exemplo, mata-se em seis dias o equivalente a 25 anos na terra da rainha.

Triste, não?

Danilo Ruffus
Jornalista, fadigado e resmungão. Sofre da síndrome do underground, acredita no apocalipse zumbi e ainda brinca de ter banda de rock.

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