O Domínio de Gotham: Do Império do Pinguim na TV à Cartada Final do Coringa nos Quadrinhos
O universo do Homem-Morcego criado por Matt Reeves, o mesmo cineasta por trás da aclamada trilogia de César em Planeta dos Macacos, sempre deixou claro que a verdadeira protagonista de suas histórias é a corrupção enraizada em Gotham City. Lembra como The Batman terminou lá em 2022? O herói vivido por Robert Pattinson consegue impedir a gangue do Charada (Paul Dano) de afundar a cidade de vez, e o extremista acaba trancafiado no Asilo Arkham. É nesse buraco que ele cruza com um prisioneiro misterioso que já deixa no ar aquela aura inconfundível do Coringa. Mas enquanto a Warner Bros. planeja os próximos passos desse universo sombrio e pé no chão, o enorme vácuo de poder nas ruas não ia ficar vazio por muito tempo.
A Ascensão do Submundo nas Telas
E quem diria que Oswald Cobb seguraria esse rojão tão bem? A ideia inicial do Reeves era usar a ascensão do Pinguim logo nas cenas de abertura de The Batman – Parte 2, mas a trama era tão boa que cresceu e ganhou vida própria. O resultado é a série O Pinguim, disponível no streaming Max com oito episódios que mergulham fundo na máfia local. A recepção foi tão calorosa que a galera já começou a traçar paralelos com gigantes da HBO, tipo Família Soprano. O Colin Farrell mais uma vez some debaixo das próteses e entrega uma atuação magistral, dividindo os holofotes com Cristin Milioti, impecável no papel de Sofia Falcone, a filha do falecido chefão Carmine. E para quem estava na dúvida: sim, o Pinguim está confirmadíssimo na continuação nos cinemas. As apostas são de que ele retorne consolidado como o novo chefão do crime de Gotham, com umas cinco ou seis cenas estratégicas ao longo da trama.
A Virada Absoluta nos Quadrinhos
Mas se no cinema a gente acompanha a ascensão de um submundo familiar, nas páginas dos quadrinhos as regras acabaram de ser viradas do avesso. A HQ Absolute Batman chegou chutando a porta nas mãos do roteirista Scott Snyder e do desenhista Nick Dragotta. A premissa logo da edição #1 arranca tudo do herói: o Bruce Wayne daqui não tem mansão, não é um herdeiro bilionário e muito menos conta com um mordomo compreensivo para servir o café. Ele é um cara de classe trabalhadora. E a grande ironia desse universo é que quem nada no dinheiro é o Coringa. Conhecido agora como Jack Grimm, ele é um imortal excêntrico (que vem se passando pelas gerações de Grimm I a V), um dos homens mais ricos do mundo e, literalmente, quem dá as cartas na cidade.
Ao longo de boas vinte edições, a HQ acompanhou o Batman comendo o pão que o diabo amassou. O alcance do Senhor Grimm é colossal e age de forma invisível. O Cavaleiro das Trevas até conseguiu despachar os “Party Animals”, um bando de mercenários que o vilão soltou pra devastar Gotham, mas o troco veio pesado. O Bruce passou meses preso numa casa dos horrores subterrânea chamada “Ark M”, o Bane do Grimm mutilou aliados do herói e quase o matou de pancada, e o capanga Espantalho ainda arquitetou a morte do Jim Gordon de um jeito que a culpa caísse direto no colo do Batman. O resultado da brincadeira? Uma tropa inteira de Robins foi acionada com autoridade policial para caçar o nosso Príncipe Cruzado do Crime. O caos absoluto.
O Encontro Inevitável
Foi só lá na edição #15 que o Batman finalmente sacou quem era a mente por trás da maquiagem, na mesma época em que o próprio Grimm decidiu voltar a Gotham pra resolver as coisas mais de perto. Mesmo assim, o Coringa continuou usando seus intermediários para provocar. Só que a gente sabe como essa dinâmica funciona: uma hora eles precisavam ficar cara a cara. E o acerto de contas que estava prometido desde a primeiríssima edição enfim acontece agora, em Absolute Batman #21.
Depois de passar a noite trocando socos com os Robins, Bruce está no seu trabalho braçal de engenharia, bem na beirada de um arranha-céu em construção. É quando ele recebe a inesperada visita de um dos “investidores” do projeto. O embate dura apenas umas quatro páginas e o Grimm praticamente domina a conversa toda. O Bruce até tenta manter a pose, esbraveja que sabe com quem está lidando e que não tem medo, mas o vilão não perde o foco. Esteticamente, a sacada do colorista Frank Martin de misturar traços do Coringa na aparência corporativa engravatada do Grimm ficou incrível. A pele do cara tem uma palidez fora do comum e a iluminação revela sutis reflexos verdes e roxos no cabelo e no casaco. Ele é fisicamente mais baixo que o Bruce (que nesse universo é um brutamontes de mais de dois metros de altura), mas ambos sabem que Grimm está longe de ser humano. Do nada, ele revela sua verdadeira face monstruosa e lança a pegadinha mais batida do mundo só pra assustar o herói: um seco “Bu!”.
O susto faz o Bruce despencar para o abismo, mas, subvertendo todas as expectativas, é o próprio Coringa quem o salva no último segundo. Essa cena ecoa de um jeito sensacional aquele final icônico de O Cavaleiro das Trevas (2008), quando o Batman de Christian Bale impede a queda do Coringa de Heath Ledger. Lembra do sorriso maníaco do vilão pendurado no prédio dizendo que eles estavam destinados a fazer aquilo para sempre? A HQ recria essa sensação de que um “completa” o outro, mas no universo Absolute as posições se invertem e é o Coringa que tem o controle total. Ele manda o recado de que a vida do Batman não pertence a ninguém além dele mesmo. Grimm simplesmente ama a criatura que ajudou a forjar.
Aliás, não é a primeira vez que a série brinca com o legado do diretor Christopher Nolan: lá na edição #5, o morcego fingiu aceitar um suborno milionário dos Party Animals só para tacar fogo na grana, criando um enorme Bat-sinal nas chamas e provando que o herói não estava à venda. No fim das contas, seja nas esquinas sombrias comandadas pelo Pinguim nas telas, ou no topo de um prédio nas páginas das HQs, a dança macabra de Gotham continua viva. A única diferença é que, agora, fica cada vez mais difícil prever quem está liderando os passos.
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